Dólar, o primeiro passo

O governo decidiu enfrentar a valorização cambial, acabou a fase de dólar cotado a R$ 2 - ele está acima disso há quatro meses -, afirma o ministro da Fazenda, porque prejudica a indústria. Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o ideal seria R$ 2,40 para estimular as exportações, mesmo aceitando alguma pressão nos preços dos produtos importados. Uma cesta de moedas ponderada indica algo em torno de R$ 2,50.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h08

Mas o câmbio e a forte queda dos juros são apenas dois caminhos para que a economia cresça 1,2% e inicie o próximo ano a um ritmo de 1,7%, como já admite o governo. Vai ser preciso mais e não é só aumentar o consumo interno, mas também o investimento para atender à demanda. Há um grande espaço para oferecer câmbio para a indústria e levá-la a investir. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, é preciso destravar os investimentos. Mas eles, não só não avançam. Recuam há quatro trimestres e devem se manter nos próximos meses.

Em esclarecedor artigo publicado no Estado, no último sábado, o economista Amir Khair lembra que o investimento é responsável por cerca de 20% do crescimento e seu recuo explica em parte a desaceleração da economia nacional, um fato que se acentua. Mas por que não reage aos estímulos oficiais oferecidos nos últimos meses pelo governo? Khair e outros analistas apontam sérias limitações nessa área. Envolvem o investimento privado, de empresas estatais, em parceria do governo com o setor privado e o feito pelo Tesouro da União, dos Estados e dos municípios.

O investimento privado reage favoravelmente à redução da taxa básica de juros (a Selic), pois passa a ser melhor investir do que procurar rendimento em títulos do governo federal. "Reage, também, favoravelmente face à oferta de financiamento com condições mais atraentes. Mas reage principalmente ante a perspectiva de expansão do consumo, ainda contido pelas elevadas taxas de juros bancárias."

Mais ainda, as empresas continuam aguardando novos sinais da demanda, o que pode se acentuar com a queda da taxa de desemprego para 5,4% e aumento dos salários de 4,6% desde setembro do ano passado. O rendimento médio é agora R$ 1.787, o que explica um consumo crescendo 60%. Mas continua sendo uma demanda atendida pelos produtos importados.

E aqui chegamos ao desafio do câmbio que o governo agora decidiu enfrentar: dólar acima de R$ 2 elevando o custo dos importados é apenas um primeiro passo que se toma - muito importante sim, pois quebra uma barreira de resistência. Mesmo atrasado abre ainda um grande espaço entre deixar de importar, investir e produzir. E não são apenas os consumidores que continuarão ainda por algum tempo comprando produtos fabricados lá fora, são as empresas também que ainda vão preferir importar componente e até mesmos produtos acabados.

Investir juntos. O caminho é o que o governo já admite, mas hesita ainda em tomar com mais decisão: as Parcerias Público-Privadas. Criar condições para que os investidores privados, nacionais e estrangeiros, se associem ao governo (federal ou estadual) em grandes projetos. Mas projetos rentáveis, que se tornem atraentes. Não adianta discutir tarifas se elas se opõem ao retorno do capital investido, como tem acontecido. E o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) pode abrir esse caminho.

Amir Khair ainda lembra em seu artigo que investimento em parceria público-privada tem sido feito principalmente com recursos de origem pública, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), fundos de pensão de estatais e do Tesouro. Mas apesar de uma infraestrutura deficiente, fala ao governo oferecer grandes projetos, e os anunciados caminham lentamente ou vão parando. Criou-se até uma empresa oficial para cuidar disso.

O problema é antigo. A falta de projetos oficiais não é um dilema novo. No lançamento do PAC 2, em março de 2010, o então ministro do Planejamento Paulo Bernardo disse que o PAC 1, que só seria concluído no fim daquele ano, perdeu "quase dois anos, por falta de projetos adequados e licenças ambientais". Quando o ano terminou e o PAC 1 acabou, cerca de 20% das obras não haviam saído do papel.

Balanço da segunda etapa do PAC, divulgado nesta semana, mostrou uma desaceleração dos investimentos ao longo dos últimos meses. O PAC 2 executou R$ 119,9 bilhões no primeiro semestre deste ano, 39% mais do que em igual período do ano anterior. Já no balanço de nove meses, os investimentos executados subiram para R$ 181,5 bilhões, o que representa 26% mais do que nos nove meses de 2011. Mas a maior parte desses desembolsos foi para o programa habitacional, Minha Casa. Minha Vida, que passou a ser classificado como "investimento", e não mais como "custeio".

Exemplo. É o oposto do que ocorre na China. Na crise de 2008, o governo do país asiático anunciou um grande programa de obras, mas os projetos já estavam prontos para ser executados. E outros projetos foram desenvolvidos nos últimos anos.

E, atentem para isso, muitas dessas obras estão sendo feitas com investimentos externos que continuam entrando no país. Nos sete primeiros meses do ano, foram US$ 66,7 bilhões.

Porta meio aberta. Sem projetos, sem planejamento, fica difícil seguir o caminho que ainda existe para atrair investimento privado em associação com o governo. E sozinho o governo vai demorar para fazer o que é preciso. E talvez continuemos investindo menos que 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Assim, vai ser difícil crescer mais de 1,2%.

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