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Fernando Dantas
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Dólar para baixo

Bolha de ativo é um problema particularmente incômodo para um banco central

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2018 | 05h00

O comentário do secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, feito na quarta-feira no Fórum Econômico Mundial em Davos, chocou os mercados e derrubou o dólar. Ele disse que um dólar fraco era bom para os Estados Unidos (por aumentar exportações e reduzir importações, estimulando a produção nacional).

Para um secretário do Tesouro dos Estados Unidos, um comentário desses não tem nada de trivial. Entre as grandes economias do mundo, a questão da “guerra cambial” (como o ex-ministro Guido Mantega gostava de falar nos seus tempos de poder) é extremamente delicada. Não é de bom tom fazê-la e menos ainda explicitá-la.

O lado negativo da “desvalorização competitiva” é o risco inflacionário. Mas esse permanece adormecido nas economias avançadas há muito tempo. Por outro lado, o escape dos países ricos da fase de crescimento anêmico posterior à crise global é recente e teve um alto custo. Os bancos centrais do mundo desenvolvido jogaram para zero ou perto de zero suas taxas de juros básicas e as mantiveram nesses níveis por um longo período (apenas os Estados Unidos já iniciaram um processo de normalização muito gradativo).

Adicionalmente, os bancos centrais injetaram gigantescos volumes de liquidez nos mercados, comprando títulos de longo prazo. Essa superdose de estímulo monetário – juro zero mais injeção de liquidez – teve o efeito pretendido, e as economias ricas estão decolando de novo. Mas é um remédio com efeitos colaterais. Um deles, a inflação, teima em não vir até agora. Em compensação, bolhas de ativos podem estar se formando.

Hoje há suspeita de valorização excessiva de ativos no caso de bolsas de diversas partes do mundo, títulos de renda fixa de alto risco de empresas e países (como o Brasil), mercados imobiliários de Austrália, Nova Zelândia, Suécia e da cidade de São Francisco e até criptomoedas, como o bitcoin.

Bolha de ativo é um problema particularmente incômodo para um banco central. O mandato mais típico dos BCs é cuidar da inflação de bens e serviços, e não da alta de ativos. Mas bolhas de ativos quando estouram podem trazer crises financeiras sistêmicas, geralmente associadas a excesso de endividamento. E outra função dos BCs é zelar pela integridade do sistema financeiro – daí não poderem ignorar a valorização excessiva dos ativos. A alta dos mercados atual não parece particularmente ligada a excesso de endividamento, mas ainda assim os BCs tendem a colocar suas barbas de molho.

O resultado disso tudo é que desvalorização cambial nesta altura do campeonato só tende a ajudar uma determinada economia rica. Dá um impulso extra na atividade, diminuindo as chances de uma recaída na letargia pós-crise. Permite ao BC normalizar mais rapidamente a política monetária ultraestimulativa. E até, quem sabe, produz uma inflaçãozinha, que neste ponto não só dá ainda mais respaldo para a alta dos juros e o enxugamento da liquidez, mas tira definitivamente do cenário o fantasma da deflação, o estágio mais patológico do tipo de estagnação que assolou o mundo avançado até recentemente.

O grande problema, entretanto, é que esse tipo de “solução” não pode ser adotado em conjunto. Quando o dólar perde valor, isso quase sempre quer dizer que o euro e o iene japonês estão se fortalecendo, e o mesmo vale para cada uma dessas moedas.

A desvalorização competitiva, portanto, é um salve-se quem puder que pode se tornar caótico se de fato for perseguido simultaneamente por todos os participantes do jogo. É o contrário, evidentemente, de uma ordem econômica internacional baseada na cooperação e na racionalidade coletiva. Daí porque o comentário de Mnuchin deixou tanta gente no establishment econômico-financeiro global de pelos arrepiados. Aliás, bem ao estilo do chefe do secretário de Tesouro americano, o presidente Donald Trump.

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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