AP Photo/Carolyn Kaster
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Bolsa fecha em queda de 1% com ameaça de Trump de taxar importações chinesas

O Ibovespa, principal índice de ações do País, acabou a segunda-feira aos 95 mil pontos; no mercado de câmbio, o dólar subiu a R$ 3,958

Silvana Rocha e Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2019 | 10h35
Atualizado 06 de maio de 2019 | 18h27

O mercado financeiro passou a segunda-feira pressionado pelo cenário externo, marcado por queda das moedas de emergentes após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar tarifas adicionais em US$ 200 bilhões de produtos chineses.

Localmente, a expectativa é pelo início dos trabalhos da Comissão Especial da Câmara, que vai avaliar a reforma da Previdência, previsto para esta terça-feira, 7. O Ibovespa fechou aos 95.008,66 pontos, em queda de 1,04%, enquanto o dólar à vista fechou em alta de 0,48%, a R$ 3,9580.

Bolsa

Os temores de acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China deflagraram um movimento global de aversão ao risco, que atingiu em cheio os mercados acionários nesta segunda-feira. O índice Bovespa operou em queda durante todo o pregão, na esteira do movimento gerado pelo aceno do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ampliar a sobretaxação a produtos chineses.

"Os comentários de Trump fizeram os mercados de risco assumirem postura defensiva, causando esse movimento de queda das ações", disse Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos. Segundo o analista, o fluxo externo continua sendo um ponto de interrogação nos mercados emergentes e em especial no Brasil, onde "os estrangeiros ainda estão esperando um bom sinal vindo das reformas da Previdência e tributária para o segundo semestre de 2019". Já os investidores locais, afirma, continuam à espera de algum incentivo à economia interna, enquanto os indicadores econômicos se depreciam.

No que diz respeito à reforma previdenciária, o clima ainda foi de compasso de espera pelo início dos trabalhos da Comissão Especial da Câmara, na terça-feira, dia 7. "O cenário para Brasil não se altera. O driver principal continua sendo a reforma da Previdência e agora os investidores estão atentos à desidratação no número do ministro Paulo Guedes, de R$ 1,23 trilhão em dez anos, para algo em torno de R$ 600 bilhões a R$ 800 bilhões de reais de economia", disse Chinchila. 

Nesta segunda, o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), disse que Paulo Guedes pode participar de uma audiência pública na Comissão Especial da reforma já nesta quarta-feira. Guedes, por sua vez, disse esta tarde que o Brasil voltará a crescer a partir de julho. "Assim que forem aprovadas as reformas, o Brasil retomará o seu caminho de crescimento sustentável. Não há novidade nenhuma nessa desaceleração econômica, o Brasil está prisioneiro de uma armadilha de baixo crescimento e nós vamos escapar com as reformas", afirmou. 

A porta de saída dos investidores foram as ações do setor financeiro, grupo de maior peso na composição da carteira teórica do Ibovespa. Nesse bloco, destaque para Itaú Unibanco PN (-2,20%) e Bradesco PN (-2,70%). Por conta do imbróglio envolvendo EUA e China, Vale ON caiu 1,47%, alinhada a outras mineradoras pelo mundo. Com o resultado desta segunda, o Ibovespa passa a contabilizar queda de 1,40% em maio.

Dólar

O mercado local ficou mais estressado pela manhã, quando o dólar bateu em R$ 3,97. Na parte da tarde, a moeda americana desacelerou o ritmo de queda, e foi negociada na casa dos R$ 3,95, em meio a notícias de que uma delegação de Pequim vai aos EUA para uma nova rodada de negociações. Operadores ressaltam que importadores e investidores estrangeiros aumentaram as compras de dólar.

O diretor e gestor em Nova York da BK Asset Management, Boris Schlossberg, destaca que os mercados de moeda tiveram reação imediata às ameaças de Trump e as divisas emergentes asiáticas já começaram os negócios desta segunda-feira enfraquecidas, seguidas pelas outras ao redor do mundo à medida que outros mercados foram abrindo. Ainda não está claro, ressalta ele, se Trump vai mesmo elevar as tarifas ou se o anúncio é apenas uma tática de negociação para pressionar os chineses. Por isso, os mercados podem oscilar agora dependendo das declarações de Pequim.

Além de provocar uma inesperada escalada na tensão comercial entre as duas maiores economias do mundo, os estrategistas do ABN Amro, Bill Diviney e Arjen van Dijkhuizen, destacam que caso Trump aumente mesmo as tarifas, pode haver impacto inflacionário dos Estados Unidos, com consequente efeito futuro nas decisões de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). Outro efeito pode ser piorar as projeções de crescimento da economia mundial, o que explica o nervosismo dos mercados nesta segunda-feira.

O estrategista da TAG Investimentos, Dan Kawa, destaca que, pelo fato de o Brasil não ter conseguido se diferenciar de outros emergentes, avançando de forma concreta com as reformas, os ativos locais ficam a "mercê do humor global a risco".

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