Dólar sobe quase 2%, mas fluxo ao país sinaliza queda

A moeda norte-americana avançou 1,77%, para R$ 1,7210

Silvio Cascione, da Reuters,

19 de março de 2008 | 16h48

O dólar subiu quase 2% nesta quarta-feira, anulando a queda da véspera, com uma correção global dos mercados diante da queda dos preços das commodities e da postura cautelosa dos investidores. A moeda norte-americana avançou 1,77%, para R$ 1,7210. Na véspera, o corte dos juros nos Estados Unidos e o alívio com o lucro de alguns bancos importantes nos Estados Unidos permitiram que o dólar desabasse 1,9%. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) era uma das mais afetadas pela queda generalizada das commodities. A cerca de meia hora do fechamento, o Ibovespa - índice que mede o desempenho das ações mais negociadas na Bolsa - caía quase 4%, puxada pela baixa das gigantes Petrobras e Vale . A desvalorização das commodities era causada pela liquidação de parte das operações usadas como refúgio em meio à turbulência dos últimos dias. O O petróleo caiu 4,51% - a maior queda em um único dia desde 1991 - e o ouro despencou 5,90% - maior queda em um dia em dólar em 28 anos."O preço das commodities é o nosso tripé das exportações. A quantidade exportada continuaria a mesma, mas a entrada de receitas cairia com a baixa (dos preços)", lembrou Marcos Forgione, analista da Hencorp Commcor Corretora, em referência ao impacto que uma queda mais forte das commodities teria sobre as contas externas do país. IOF "engrossa fluxo"A entrada de dólares no país, no entanto, mostrou um vigor inesperado no começo do mês. Nas duas primeiras semanas de março, o fluxo cambial ficou positivo em US$ 9,76 bilhões, segundo dados do Banco Central. O resultado, muito maior do que o esperado, foi provocado pelo intervalo entre o anúncio e a entrada em vigor das novas medidas do governo para conter a valorização do real. Segundo analistas, alguns participantes do mercado aproveitaram para antecipar a entrada de dólares. Desde a segunda-feira desta semana, os estrangeiros estão sujeitos à cobrança de 1,5% de IOF sobre seus investimentos em renda fixa, mas a medida já havia sido anunciada formalmente pelo governo na quarta-feira passada. A maior parte do fluxo positivo foi trazido pelas operações financeiras, com US$ 7,133 bilhões de superávit. As operações comerciais tiveram saldo positivo de US$ 2,627 bilhões. Mesmo com a enxurrada de dólares, porém, a moeda norte-americana subiu na semana passada. Para Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Corretora, o aparente paradoxo é explicado pela postura dos investidores no mercado futuro. Entre os dias 12 e 14 de março, os estrangeiros compraram mais de US$ 6 bilhões no mercado futuro. Com isso, protegeram suas posições contra uma eventual disparada da moeda norte-americana em meio à crise. Ao mesmo tempo, porém, já trouxeram bilhões de dólares no mercado à vista, antecipando operações de prazo mais longo para fugir da cobrança do IOF. Esses dólares foram absorvidos pelos bancos no período, avaliam analistas do BNP Paribas --já que a posição comprada dos bancos em dólar no mercado à vista deve ter ido de US$ 3,2 bilhões para US$ 12,2 bilhões, avaliam. Com a gradativa melhora dos mercados internacionais, os estrangeiros devem remontar suas posições vendidas no mercado futuro, para apostar na queda do dólar. Com isso, os bancos teriam que devolver ao mercado o excedente de moeda comprada no período, aumentando a oferta e derrubando a cotação do dólar. "(Os estrangeiros) viraram essa posição defensivamente, o que não os impede de construir essa posição (vendida em dólares no futuro) mais uma vez", disse Nehme.

Tudo o que sabemos sobre:
Mercado financeiroCrise nos EUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.