Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Dólar cai mais de 1% e fecha a R$ 4,05 com trégua política

No mercado de ações, o otimismo com a reforma da Previdência levou o Ibovespa a fechar em alta de 2,76%, aos 94,5 mil pontos

Antonio Perez e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2019 | 10h18
Atualizado 21 de maio de 2019 | 18h39

Depois de quatro pregões seguidos de alta, em que acumulou valorização de 3,19%, o dólar recuou na sessão desta terça-feira, 21. A perda de força da moeda americana em relação a divisas emergentes e o arrefecimento das tensões políticas abriram espaço para a queda. A moeda americana operou na maior parte do dia em baixa e fechou a R$ 4,0478,  com recuo de 1,35%, na mínima do pregão.

Na B3, a Bolsa paulista, houve alta expressiva nesta terça-feira, ainda impulsionada pela melhora da percepção em relação à aprovação da reforma da Previdência, combinada com o maior apetite por risco no mercado externo. O Ibovespa oscilou em terreno positivo desde a abertura, acelerou o ritmo gradativamente ao longo do pregão e encerrou o dia com um salto de 2,76%, aos 94.484,63 pontos.

Câmbio

Para o sócio-diretor da Via Brasil Serviços, Durval Corrêa, o panorama de incerteza política havia alimentado nos últimos dias um movimento especulativo com dólar futuro que não pôde mais ser sustentado. Passado o pior momento dos atritos entre o presidente Jair Bolsonaro e o Congresso, investidores liquidaram operações compradas para embolsar lucros. "Não havia demanda efetiva de saída de recursos para essa arrancada do dólar. Era mais um movimento especulativo, principalmente por parte dos estrangeiros com base na incerteza política", afirma Corrêa. 

Ao acerto na segunda-feira, 20, entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o relator da PEC da previdência na Comissão Especial da Câmara, Samuel Pereira (PSDB-SP), em torno da manutenção da economia de R$ 1 trilhão com a reforma somou-se o acordo entre lideranças partidárias para votação de Medidas Provisórias que ameaçavam caducar, como a MP dos ministérios e a que permite 100% de capital estrangeiro em empresas aéreas. 

A leitura é que o Congresso não vai se deixar emparedar pelo governo e tentará assumir o protagonismo na agenda de reformas, de maneira a esvaziar a pauta dos protestos de apoiadores de Jair Bolsonaro contra o Centrão e o Supremo Tribunal Federal (STF), marcados para domingo, 26.

Ao acelerar a votação aprovar a MP dos Ministérios sem a recriação das pastas das Cidades e da Integração Nacional, parlamentares querem desfazer a imagem de que tentam barganhar espaço no governo em troca de votos. Na segunda à noite, o presidente já havia baixado o tom e dito que, apesar de ter cometido "algumas caneladas", valoriza o parlamento. Nesta terça-feira, Bolsonaro disse que não vai às manifestações de domingo, ajudando a arrefecer os ânimos.

Operadores ressaltam que, passado o processo de reversão de posições compradas no mercado futuro, o dólar pode se acomodar na faixa entre R$ 4 e R$ 4,05, caso não haja nova rodada de estresse político ou onda de fortalecimento global da moeda americana.

Bolsa

O efeito da melhora na percepção política fica evidente se observado o desempenho das ações de empresas estatais, espécie de termômetro do risco atribuído ao cenário doméstico. Banco do Brasil ON disparou 5,71%, Petrobrás PN avançou 3,80% e Eletrobrás ON subiu 4,97%. O setor bancário de modo geral, também sensível ao humor do investidor em relação ao governo, contribuiu em peso para a alta do Ibovespa. Itaú Unibanco PN subiu 3,84%.

"Não creio que a alta foi exagerada. Houve exagero, sim, nas quedas dos últimos dias. A impressão que se tem é que a reforma da Previdência adquiriu vida própria. Apesar dos ruídos políticos, não vimos ninguém no Congresso falar que a reforma da Previdência corre risco de não ser aprovada", disse Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Ativa Investimentos.

O economista destaca que o ambiente hoje é muito melhor do que foi no governo Temer, com maior compromisso de parlamentares, maior apoio popular às mudanças e sem denúncias contra a pessoa do presidente. Apesar da visão mais otimista, o Freitas alerta que o mercado deve continuar experimentando períodos de "extrema volatilidade", uma vez que, além das questões políticas, ainda devem pesar no cenário os desdobramentos da tensão comercial entre Estados Unidos e China.

Na avaliação de Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença Corretora, a alta mais agressiva do Ibovespa nos últimos dois pregões está em boa parte relacionada a suportes gráficos que indicavam a possibilidade de recuperação, próximos dos 90 mil pontos. Na última sexta-feira, o Ibovespa fechou no patamar dos 89 mil pontos, menor patamar de 2019. Monteiro é um dos profissionais que consideraram a alta bastante expressiva para um dia sem grandes novidades.

"A Bolsa estava bastante amassada em dólares e os investidores viram chances de compra. No cenário político, só o que se viu até agora foi que a fervura da água diminuiu um pouco. O clima de incerteza não desapareceu", afirmou. 

Para os próximos dias, são diversas as expectativas do investidor. Nesta quarta-feira, os investidores concentram as atenções na divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve. Seguem no Congresso as negociações para votação de Medidas Provisórias importantes, como a MP 870, que trata da reforma administrativa que organizou os ministérios da gestão do presidente Jair Bolsonaro. A líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), afirmou que a aprovação da MP é a prioridade do governo. A matéria deverá ser votada nesta quarta-feira.

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