Dólar tem nível mais alto em três anos e meio

Moeda americana encerrou a quarta-feira próxima de R$ 2,10; BC não intervém e mercado especula sobre o nível que agrada ao governo Dilma

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h06

O dólar alcançou ontem o maior valor em três anos e meio, cotado a R$ 2,094. Como o Banco Central (BC) não tem entrado no mercado, investidores e analistas vêm operando com base em declarações de autoridades. Ontem, por exemplo, pesou sobre os negócios uma afirmação do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Segundo ele, "o câmbio está flutuando". "Assim como o real se desvalorizou, todas as outras moedas também caíram em relação ao dólar."

Alguns especialistas interpretaram a fala do ministro como um sinal verde para novas rodadas de valorização da moeda americana ante o real. "A ausência do Banco Central do mercado indica que o governo parece satisfeito com a tendência", disse um operador de câmbio que pediu para não ser identificado.

Se o BC permanecer fora do mercado nos próximos dias, observou esse profissional, os investidores só terão uma sinalização mais clara sobre o que quer o governo na semana que vem. No fim do mês, vencem operações de swap cambial reverso (que, na prática, equivalem à compra de dólares), mas o BC avisa o mercado com alguns dias de antecedência sobre suas intenções.

Em outras palavras, se o Banco Central renovar esses contratos, reforçará a percepção de que o governo quer mesmo um dólar ainda mais caro. Se não renovar, indicará que a recente alta da moeda americana pode começar a incomodar as autoridades.

O real mais fraco tende a favorecer a indústria nacional, na medida em que encarece os produtos importados e aumenta os ganhos, em reais, das empresas exportadoras. Nas últimas semanas, vêm circulando rumores de que Brasília gostaria que a moeda americana caminhasse para a faixa dos R$ 2,30 até o fim do governo Dilma Rousseff.

A contrapartida do dólar mais caro é o efeito na inflação. O economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani, estima que cada 10% de valorização do dólar ante o real tem um impacto de 0,3 ponto porcentual na inflação oficial (IPCA).

Ou seja, o indicador que hoje está em 5,45% nos últimos 12 meses iria para 5,75%, aproximadamente. O problema é que o teto da meta de inflação no Brasil é de 6,5%. No caso de um choque de preços, o BC teria menor margem de manobra e o IPCA poderia furar esse teto.

Vice-lanterna. No ranking das principais moedas globais, o real ocupa a vice-lanterna em termos de perda ante o dólar. No acumulado de 2012 até ontem, a moeda brasileira perdia 8,5%, à frente apenas do rand da África do Sul, que recuava 17,7%. Nesse levantamento, o primeiro lugar era ocupado pelo dólar australiano, com ganhos de 12,2%.

Como o Brasil e a Austrália têm muitas semelhanças no comércio exterior, analistas afirmam que as duas moedas costumam caminhar na mesma direção. "A diferença de posição das duas moedas no ranking mostra como a pressão do governo brasileiro pelo enfraquecimento do real tem funcionado", comentou outro especialista.

Levando em consideração apenas os últimos 30 dias, o real se desvalorizou 3,2% em relação ao dólar, ante 3,3% do rand sul-africano e 3,8% do iene japonês. São os três últimos colocados do ranking de 16 países. Na liderança ficou o won sul-coreano, com alta de 1,9%, seguido pelo dólar da Austrália (+0,33%). / COLABOROU EDUARDO RODRIGUES

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.