Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Dólar fecha abaixo de R$ 3,90 com aposta em corte de juros nos EUA

A moeda americana encerrou em baixa de 0,96%, a R$ 3,8878; o Ibovespa anulou os ganhos da manhã e fechou estável

Antonio Perez e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2019 | 11h56

O aumento das apostas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) cortará os juros este ano, em meio a indicadores fracos da indústria americana, levou ao enfraquecimento do dólar perante a maior parte das moedas nesta segunda-feira, 3. O índice DXY, que compara a divisa dos EUA a uma cesta de seis divisas fortes, renovou mínimas à tarde, em reação à divulgação de um discurso do presidente do Fed de Saint Louis, James Bullard, que destacou que um corte nos juros americanos "pode ser justificado em breve".

Por aqui, o dólar, que já vinha em ritmo de queda, também bateu mínimas, encerrando em baixa de 0,96%, a R$ 3,8878, no segmento à vista - é a primeira vez desde 15 de abril deste ano que a divisa fecha abaixo dos R$ 3,90.

O Ibovespa registrou mínimas na etapa vespertina da sessão, seguindo o mau humor externo e um movimento de correção após as altas recentes, mas fechou praticamente estável, aos 97.020,48 pontos (-0,01%), com a informação de que o Senado alcançou quórum para apreciar a MP 871, criada para combater fraudes no INSS e que perde a validade se não for votada nesta segunda. Em Wall Street, após operar em baixa, o índice Dow Jones conseguiu fechar em leve alta de 0,02%, o S&P 500 caiu 0,28% e o Nasdaq perdeu 1,61%, pressionado pelas ações de tecnologia, afetadas por notícias de investigações antitruste contra gigantes do setor nos EUA.

Dólar

Dados de atividade industrial mais fraco que o esperado nos Estados Unidos divulgados pela manhã e temores crescentes em relação à guerra comercial abalaram as expectativas para o crescimento americano e, por tabela, elevaram as apostas em afrouxamento monetário nos EUA. O resultado foi uma onda global de enfraquecimento do dólar, intensificada ao longo da tarde pelo presidente do Fed de Saint Louis. No exterior, o índice DXY - que mede a variação do dólar em relação uma cesta de seis divisas fortes - perdeu mais de 0,50% e registrou o menor nível intraday desde 13 de maio.

"Ao contrário da semana passada, quando o mercado aparentemente adotou um otimismo com o destravamento do Congresso, a queda do dólar hoje está muito mais ligada ao cenário lá fora, com o Fed falando da possibilidade de corte de juros", afirma Fernanda Consorte, estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, para quem o recuo de 2,23% dólar na semana passada foi exagerado e sem base em fundamentos e sinais mais concretos de melhora na articulação política. "O mercado está dando novamente a dúvida ao governo, mas não parece que o governo já tem os votos para aprovar a previdência no plenário da Câmara". 

Na sequência de apreciação de MPs que animou o mercado, as atenções se voltaram nesta segunda-feira as articulações para a votação no Senado da MP n.º 871, deste ano, que combate fraudes no INSS e pode expirar caso não seja aprovada ainda hoje. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que a MP era fundamental para garantir que mudanças previstas para a aposentadoria rural possam ser retiradas da PEC da Previdência.

Em encontro com governadores do PSDB, que defendem a manutenção de estados e municípios na reforma, o relator da PEC da previdência na comissão especial na Câmara, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), disse que pode apresentar seu relatório nesta quinta-feira (6) ou, no mais tardar, até a próxima segunda-feira (10). No fim do dia, Maia foi além e previu que a reforma deve ser aprovada no plenário da Câmara no fim de junho ou início de julho. 

Para Felipe Pelegrini, gerente de tesouraria do Travelex Bank, apesar da queda recente do dólar, o mercado de câmbio tende a seguir "muito arisco", monitorando de perto as negociações em torno da reforma. "Não se pode descartar novas altas caso o estresse político aumente. Sem notícias negativas, a tendência é que o dólar fique entre R$ 3,85 e R$ 3,95", afirma Pelegrini.

Bolsa

Além das quedas em Nova York, também houve contribuição negativa das ações de empresas exportadoras, alinhadas ao câmbio, e dos papéis das empresas de proteína, em resposta à suspensão preventiva de exportação de carne bovina para a China. Por outro lado, as ações da Petrobras mantiveram-se em alta mesmo com a depreciação dos preços do petróleo, apoiadas na expectativa de avanço do plano de desinvestimento da estatal.

Para Victor Beyruti, da área de análise da Guide Investimentos, são três as principais expectativas do investidor da Bolsa nos próximos dias: votação da MP 871, decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o aval do Congresso para privatizações e apresentação do relatório da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara.

Para Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença Corretora, a principal expectativa do mercado segue focada na reforma da Previdência, embora os pregões possam ser influenciados por notícias corporativas ou de natureza macroeconômica. A mudança de tom de Executivo e Legislativo, que se mostram mais afinados na busca pela aprovação das reformas, segundo ele, ainda anima os investidores.

"O tom otimista em torno da reforma da Previdência foi mantido, mas a falta de fatos concretos sobre o assunto manteve o investidor em clima de expectativa", disse o profissional, justificando o desempenho fraco do mercado neste primeiro pregão de junho.

As ações da Petrobrás foram o principal destaque do dia, com ganhos de 2,20% (ON) e 1,72% (PN), mesmo com o petróleo em baixa nos futuros de Nova York e Londres.

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