Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

Cautela com ambiente político impede recuperação da Bolsa

Quebra do sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro e delação com nome de Rodrigo Maia pesaram também sobre o real nesta terça-feira

Paula Dias e Antonio Perez, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2019 | 10h42
Atualizado 14 de maio de 2019 | 19h07

O noticiário doméstico foi um obstáculo à recuperação dos ativos brasileiros nesta terça-feira, 14. Depois de ter perdido quase 4,5% com o recente episódio da guerra comercial entre Estados Unidos e China, o índice Bovespa teve uma alta modesta, se comparada ao desempenho mais forte das bolsas de Nova York ao longo do dia. Ao final do pregão, o índice brasileiro marcou 92.092,44 pontos, com ganho de 0,40%

No mercado cambial, depois de uma manhã de volatilidade, alternando altas e baixas, o dólar à vista operou em leve queda ao longo da tarde e, com uma leve recuperação na reta final dos negócios, fechou a R$ 3,9766, praticamente estável (-0,07%).

Bolsa

Os acenos mais amistosos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação a um acordo comercial com a China favoreceram a recuperação das bolsas na Europa e nos Estados Unidos, onde os principais índices sustentaram ganhos em torno de 1% por toda a tarde. Por aqui, o Ibovespa tentou pegar carona na redução da aversão ao risco no exterior, mas não conseguiu ultrapassar a máxima dos 92.529 pontos (+0,87%).

Pesaram as notícias da quebra do sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e da associação do nome de Rodrigo Maia (DEM-RJ) ao pagamento de propinas por parte da Gol, feita em delação premiada de um dos sócios da empresa, Henrique Constantino. As notícias começaram a ser veiculadas do final da tarde de terça-feira, mas chegaram a exercer influência sobre o Ibovespa futuro, que caiu mais de 3% na terça-feira.

"Vejo o dia de hoje como uma acomodação, porque está muito difícil encontrar um 'upside' no mercado. A guerra comercial ganhou uma dimensão bem maior, mais concreta. Aqui, o tsunami que o presidente Jair Bolsonaro gera muita incerteza sobre o que ele quis dizer", disse Daniel Xavier, economista-chefe do DMI Group. "Não fossem essas questões políticas de hoje, o mercado teria voltado com muito mais vigor", afirmou.

Outro ponto negativo do dia foi o desânimo do investidor com a economia nacional, em meio aos  reiterados sinais de desaceleração. Nesta terça foi a vez dos números sobre o setor de serviços. Em audiência na Comissão Mista de Orçamento (CMO), o secretário do ministério da Economia, Waldery Rodrigues Júnior, disse que a nova projeção do governo para o crescimento da economia deve ficar abaixo dos 2%. Hoje, é de 2,2%. O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o governo "não vai vender falsas esperanças" em relação à situação fiscal difícil que o país enfrenta. "Não adianta achar que vamos crescer 3%, a realidade é que estamos no fundo do poço", disse o ministro.

As ações de empresas ligadas a commodities terminaram o dia em alta, sob influência da melhora do apetite por risco no exterior. Petrobras PN subiu 0,39%, Vale ON ganhou 0,34% e Gerdau PN avançou 1,01%. As ações do setor financeiro, símbolos de liquidez e termômetros de risco político, tiveram desempenho mais fraco. Banco do Brasil ON perdeu 0,97% e Itaú Unibanco, 0,47%.

Dólar

A ligeira recuperação do real nesta terça-feira veio no bojo de um movimento global de perda de força da moeda americana em relação a divisas emergentes, após declarações do presidente dos EUA, Donald Trump. 

A leitura nas mesas de operação é que o real poderia até ter se fortalecido um pouco mais caso não tivessem surgido novos ruídos no ambiente político.

Para Fernanda Consorte, estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, a despeito da leve queda hoje, o dólar permanece em um nível elevado, em razão tanto do ambiente externo conturbado, com as tensões comerciais sino-americanas, quanto dos temores de que a reforma da previdência se arraste ao longo do segundo semestre e seja muito diluída. 

"Apesar da recuperação hoje, a condição internacional é muito ruim para divisas emergentes. Aqui houve estresse adicional pela manhã com essa notícia do Maia e a quebra do sigilo do Flávio Bolsonaro. O mercado considera o Maia o principal ponto de apoio da previdência no Congresso, e qualquer notícia contra ele é ruim", afirma a estrategista, ressaltando que o alívio do dólar à tarde veio na esteira de declarações do presidente americano que amenizaram a aversão ao risco.

O dólar apresentou perdas maiores em relação o rand sul-africano, a lira turca e o rublo (entre -0,40% e -0,60%). Em relação ao peso colombiano e mexicano, considerados pares do real, a queda foi menor (em torno de -0,20%). 

Para a estrategista do Banco Ourinvest, a possibilidade de um movimento de apreciação do real capaz de levar a cotação para R$ 3,80 depende da aprovação de uma reforma da previdência com "níveis aceitáveis" de economia. "Por outro lado, se por acaso a reforma se arrastar e acabe sendo muito desidratada, o dólar pode ir para cima de R$ 4", diz Fernanda Consorte.

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