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Dominância da desordem

Chega ao ponto em que os juros, por mais altos que sejam, não ajudam a derrubar a inflação

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2015 | 21h00

Há alguns meses, analistas de peso vêm advertindo que a economia está mergulhando rapidamente na dominância fiscal. É a situação em que a desorganização das contas públicas assume proporções tais que prejudica a eficácia de outras políticas, como a monetária e a cambial. (Outra coluna sobre o tema foi publicada no dia 9 de setembro.)

Chega ao ponto em que os juros, por mais altos que sejam, não ajudam a derrubar a inflação; ao contrário, só aumentam as despesas com a dívida. Nessas condições, fica inevitável a monetização da dívida, ou seja, a emissão de moeda para pagar seu resgate, o que aumenta ainda mais a inflação.

A política cambial também fica prejudicada porque, numa fase de forte desordem fiscal, o nível de confiança mergulha e os agentes econômicos, tanto empresas como pessoas físicas, buscam refúgio na compra de moeda estrangeira, o que tende a inviabilizar metas formais e informais de câmbio.

O economista de linha ortodoxa Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, vinha denunciando há mais de um mês o risco de que essa síndrome tomasse conta da economia. Da escola keynesiana e desenvolvimentista, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo foi um dos primeiros a chamar a atenção para esse risco. Para enfrentá-lo, Pastore sugeriu choque fiscal e Belluzzo, mais crescimento.

Na semana passada, a economista, também de orientação ortodoxa, Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington, já deixou de falar em mera possibilidade. Para ela, a economia já está mergulhada na dominância fiscal.

Em artigo publicado no blog do instituto e, nesse fim de semana, em entrevista ao Estadão, Monica sugere que, na falta de eficácia da política monetária, o governo suspenda temporariamente o regime de metas de inflação. Em seu lugar, recomenda a adoção de uma política de bandas móveis de câmbio com o objetivo de controlar a inflação. Nessas condições, o Banco Central teria de vender dólares das reservas sempre que a procura por moeda estrangeira ameaçasse puxar os preços para cima da meta. E teria de comprar sempre que as cotações resvalassem para abaixo do piso.

Essa política ancoraria os preços, acredita Monica, e daria tempo para que o governo consertasse as finanças públicas, de maneira a desmontar a anomalia. Uma vez reequilibradas as contas, a política de metas de inflação seria restabelecida e o câmbio voltaria a flutuar. No limite, o risco dessa estratégia é ser interpretada como desespero do governo e provocar pânico no mercado financeiro.

Na falta de firmeza da reconstrução da política fiscal, poderia haver debandada dos títulos amarrados a juros tanto pós como prefixados e enorme demanda por moeda estrangeira, a ponto de provocar rápido esgotamento das reservas.

Essa seria a principal razão pela qual a sugestão de troca temporária da âncora monetária pela âncora cambial será recebida com reservas.

O melhor é atacar com determinação o déficit das contas públicas. Se isso for feito de maneira crível e sustentável, a própria armação de dominância fiscal tende a se desfazer.

Mercado desgarrado

O Banco Central continua com dificuldades para gerenciar expectativas. Como mostram os gráficos, as projeções para a inflação de 2015 já vão para 9,53% e as de 2016 avançam para 5,94%, muito acima do centro da meta (4,5%), o compromisso assumido pela autoridade monetária. As cinco instituições que mais acertam os prognósticos, os Top 5, ainda mais pessimistas, estão mais desgarradas do que a média do mercado. Preveem inflação de 9,63% em 2015 e de 6,39% em 2016. Os prognósticos para o avanço do PIB estão agora na 12ª baixa continuada: queda de 2,85% em 2015.

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