Dominar o mundo

Em 2011, passei uma semana no Vale do Silício, para fazer uma série de reportagens, e me chamou a atenção a ambição das empresas iniciantes americanas. Startups com três, quatro pessoas já anunciam como objetivo liderar o mercado mundial. Na prática, mesmo com as bem-sucedidas, isso não acontece tão cedo. Demoram pelo menos um par de anos para conquistar o mercado americano. O que importa, no entanto, é que desde cedo os empreendedores do Vale do Silício têm essa pretensão de se transformarem em gigantes mundiais.

O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h07

Publiquei outra série de reportagens, no começo deste ano, sobre alguns dos principais polos de tecnologia brasileiros. Por aqui, a ambição das startups é bem diferente. Normalmente, as empresas miram os principais mercados do Brasil e, se tudo der certo, uma expansão para os países vizinhos, como o Chile e a Argentina. É difícil encontrar essa fome de dominar o mundo, muito natural entre os americanos. Lá, o natural é se tornar uma grande companhia global. Por aqui, parece que o mercado local basta.

Ouvi algumas explicações para isso e, provavelmente, é uma combinação de motivos que leva a essa diferença de mentalidade. Em primeiro lugar, o mercado brasileiro é grande e relativamente protegido. Existem barreiras tributárias importantes para a tecnologia produzida no exterior. Até mesmo a língua portuguesa pode ser considerada um incentivo à atuação local, quando se trata de software e serviços.

Até pouco tempo atrás, o Brasil era considerado o queridinho dos mercados mundiais. Isso atraiu muitos investidores para o País. Mesmo assim, o mercado de investimentos em empresas iniciantes ainda não é totalmente desenvolvido por aqui. São poucas ainda as alternativas de saída para o investidor. Além disso, características da legislação brasileira tornam o risco de se investir aqui muito maior do que nos EUA. Se uma empresa americana quebra, o investidor perde o seu dinheiro e ponto. Se isso acontece com uma companhia brasileira, o investidor acaba herdando o passivo da empresa, na proporção de sua participação nela.

Esse cenário de investimento acaba tornando o empreendedor brasileiro muito mais conservador que o americano. A empresa tem de se tornar lucrativa muito mais rapidamente, porque o capital é escasso. No mercado de internet, esse cenário incentiva o surgimento das chamadas "copycats", companhias que copiam modelos de negócio já consagrados fora do Brasil. Copiar o que dá certo lá fora facilita a atração de investimento, porque o modelo de negócios comprovado significa menor risco. Também facilita a estratégia de saída, por criar uma opção importante de se vender a companhia local para a empresa estrangeira que foi copiada.

Uma coisa que me chamou atenção, ao visitar os polos brasileiros de tecnologia, foi uma certa barreira ao crescimento das empresas locais. É difícil encontrar alguma delas, mesmo as de maior sucesso, com faturamento maior que R$ 200 milhões anuais. Não cheguei a ver nenhum estudo a respeito, mas é um número que apareceu em várias conversas. Não quer dizer que não existam empresas brasileiras de tecnologia que faturem mais do que isso. Companhias como Totvs, Positivo Informática e Stefanini têm receita anual na casa dos dez dígitos. Nos polos que eu visitei, no entanto, parecia difícil para os empreendedores ultrapassar essa marca dos R$ 200 milhões.

Conversei um dia desses com o Fabio Bruggioni e a Andiara Petterle, da e.Bricks Digital, empresa criada pelo Grupo RBS para investir no mercado de tecnologia. Para Bruggioni, a barreira dos R$ 200 milhões se explica porque, quando a empresa atinge esse ponto, já se tornou um negócio confortável. Os fundadores ganharam um bom dinheiro e, para continuar crescendo, precisariam de uma nova estrutura de capital, atraindo investidores e colocando em risco tudo o que conseguiram. Andiara apontou uma diferença importante entre o Brasil e o Vale do Silício no perfil dos empreendedores. Lá, a maioria tem formação técnica, de engenharia ou programação, com foco em tecnologia e produtos. Por aqui, a maior parte dos fundadores estudou administração, o que explicaria o apetite menor ao risco.

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