Doug Mills/The New York Times
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Donald Trump declara guerra aos pobres

A pergunta que cabe não é se Trump e amigos estão tentando fazer a vida dos pobres mais infeliz, sofrida e curta. Isso eles estão. A verdadeira pergunta é: por quê?

Paul Krugman, The New York Times

27 Abril 2018 | 18h08

Os Estados Unidos não foram sempre (ou mesmo usualmente) governados pelos melhores e mais brilhantes. É comum presidentes se cercarem de malandros e idiotas. Não acredito, porém, que já tenha havido algo semelhante à coleção de vilões e trapaceiros que cerca Donald Trump. Price, Pruitt, Zinke, Carson e agora Ronny Jackson... Nesta altura, já daria para concluir que existe algo de seriamente errado com qualquer um que o presidente traga para sua equipe.

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Entretanto, precisamos manter o olho no jogo. As mordomias que vários assessores de Trump exigem - viagens de primeira classe, cabines de telefone à prova de som, e por aí vai - já são um ultraje e dizem muito sobre eles. Mas o pior mesmo são suas decisões políticas. 

Embora a insistência de Ben Carson em gastar US$ 31 mil dos contribuintes numa mobília de sala de jantar seja ridícula, sua proposta de elevar fortemente o custo da moradia para centenas de milhares de famílias necessitadas americanas, triplicando os aluguéis para alguns dos lares mais pobres, é simplesmente cruel. 

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Essa crueldade é parte de um padrão mais amplo. No ano passado, Trump e seus aliados no Congresso dedicaram a maior parte dos esforços a mimar os ricos. Isso ficou óbvio no corte de impostos, mas mesmo o ataque ao Obamacare foi em grande parte destinado a garantir a redução de centenas de bilhões de dólares em pagamento de impostos para os mais ricos.  Neste ano, porém, a prioridade do Partido Republicano parece ser uma guerra contra os pobres. 

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Essa guerra tem várias frentes. À investida para cortar subsídios para a moradia, segue-se um movimento para aumentar fortemente as exigências para a concessão de vales-refeição. Ao mesmo tempo, o governo vem permitindo a Estados sob controle republicano impor novas exigências de trabalho atreladas a benefícios do Medicaid - medida cujo efeito principal não será provavelmente aumentar a força de trabalho, mas simplesmente reduzir o número de pessoas que recebem cuidados de saúde essenciais. 

Mesmo a desregulamentação financeira de facto do governo - com a erosão sistemática da proteção financeira ao consumidor - deve ser vista em grande parte como um ataque aos menos favorecidos, uma vez que famílias de baixa renda e trabalhadores menos qualificados são as vítimas mais prováveis de banqueiros exploradores.

A pergunta que cabe não é se Trump e amigos estão tentando fazer a vida dos pobres mais infeliz, sofrida e curta. Isso eles estão. A verdadeira pergunta é: por quê?

Será para poupar dinheiro? Conservadores se queixam do custo dos programas de proteção social, mas é difícil levar a sério queixas vindas de pessoas que acabam de detonar o orçamento com o corte de impostos. Além disso, há boas evidências de que alguns dos programas sob ataque, na verdade, fazem o que os cortes de impostos não fazem: proporcionar o eventual retorno de uma parte significativa do custo inicial por meio de melhor desempenho econômico geral. 

Por exemplo, a criação do programa de vale-alimentação não apenas torna um pouco mais fácil a vida dos beneficiários - ela tem também impacto positivo na saúde atual e futura dos filhos de famílias pobres, o que os tornará mais produtivos quando adultos. E eles provavelmente pagarão mais impostos e necessitarão menos de assistência pública.  / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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