Donos da Unipar brigam por controle da sociedade com Petrobrás

Uma semana depois de virarem sócios majoritários da Petrobrás, controladores da Unipar retomam disputa familiar

Irany Tereza e Ricardo Grinbaum, RIO, O Estadao de S.Paulo

10 de dezembro de 2007 | 00h00

Uma semana depois de fechar um acordo histórico com a Petrobrás, a empresa petroquímica Unipar está às voltas com uma nova disputa entre os membros da família Geyer pelo controle do grupo. Há anos, os parentes brigam para ver quem manda na empresa. As disputas pareciam superadas durante as negociações com a Petrobrás. Mas agora estão voltando, com uma diferença: os interesses da Unipar estão mais amarrados do que nunca com os da Petrobrás. Com o recente acordo, a Unipar virou o segundo maior grupo petroquímico do País, tendo a Petrobrás como sócia minoritária. O acordo com a Petrobrás foi assinado na sexta-feira, dia 3. Pelo acordo, a Petrobrás e a Unipar uniram suas empresas petroquímicas no Sudeste, incluindo a Suzano Petroquímica - que acaba de ser comprada pela Petrobrás. O novo grupo - chamado provisoriamente de Companhia Petroquímica do Sudeste (CPS) - deve ser um grande produtor de matérias-primas para plásticos e faturar cerca de R$ 6,1 bilhões por ano.Depois de uma intensa batalha de bastidores, a Unipar conseguiu ser a líder do novo grupo, com 60% das ações, enquanto a Petrobrás ficou com os 40% restantes. A Petrobrás ganhou o direito de veto de algumas decisões estratégicas, mas a Unipar conseguiu mais: o controle do grupo e o direito a nomear o presidente da nova companhia. Com o acerto, Unipar deu um salto, mais do que dobrou de tamanho e se tornou o segundo maior grupo petroquímico do País, atrás apenas da Braskem.O acordo partiu da premissa que as velhas brigas da família Geyer pelo controle da Unipar haviam sido resolvidas com a ascensão do jovem Frank Geyer, de 35 anos, ao comando da empresa. Mas, longe de selar a paz entre os controladores da Unipar, a operação com a Petrobrás deflagrou uma guerra pela reestruturação da holding familiar que controla o grupo. Em paralelo aos trâmites operacionais que irão concluir, no prazo de 60 a 90 dias, a nova companhia petroquímica, ocorrerá uma disputa interna para tentar reduzir de cinco para três os acionistas da holding que controla a Unipar. Tudo indica que será uma traumática disputa em família. Sinal inequívoco foi a ação movida por Alberto Geyer Albukakir, de 33 anos, questionando a condução dos negócios pelo irmão, Frank, de 35, curador judicial da mãe, Cecília, afastada da linha de frente por problemas de saúde.A petição, que corre em segredo de Justiça, deu entrada na segunda-feira seguinte à assinatura do acordo com a Petrobrás. A Unipar não se pronuncia a respeito. Segundo fontes ligadas às empresas, Alberto indaga, na ação, se a transação representou perda patrimonial para a mãe. Pode ser o primeiro passo para tentar destituir Frank do comando da Unipar e, portanto, da Companhia Petroquímica do Sudeste.A medida, que juridicamente tem o jargão de "medida urgente incidental", pode não representar risco ao acordo com a Petrobrás, mas é o estopim para mais uma disputa entre os herdeiros de Paulo Geyer, fundador da Unipar e avô dos irmãos Frank e Alberto. Desde a morte do patriarca, há três anos, a família tenta chegar a um acordo. Agora, com o acerto para a criação da CPS, a reestruturação societária se mostra inadiável.Integrada pelos cinco filhos de Paulo Geyer, a holding Vila Velha, sob a qual está subscrita a Unipar e, abaixo dela, todas as empresas do grupo, teve acrescentado ao organograma a Companhia Petroquímica do Sudeste. A família reúne ainda 16 netos e seis bisnetos. Os cinco acionistas - Alberto, tio dos irmãos Frank e Alberto, Cecília, Vera, Maria e Joanita - participam do capital em proporções idênticas, mas em junho foi assinado um acordo pelo qual apenas três deles detêm o controle: Vera, Maria e Cecília, representada por Frank, que tornou-se vice-presidente do conselho de administração, presidido pelo tio. Na disputa pelo poder na empresa, Frank costurou um acordo com as tias e saiu vitorioso, deixando o tio fora do bloco de controle.A Vila Velha é avaliada hoje em torno de US$ 200 milhões, mas um acordo de venda de participação entre os acionistas deverá ser calculado em proporções bem maiores, já que a holding administra ativos que acabam de alavancar extraordinariamente seu valor de mercado. A Unipar ainda terá de aportar R$ 380 milhões na nova companhia, para uniformizar a formação de ativos com a Petrobrás, e ter o direito a permanecer majoritária.Um acordo entre eles terá de envolver a venda de patrimônios pessoais, já que uma oferta de ações para captação de recursos representaria a perda do controle acionário.A COMPLEXA JOGADA DA PETROBRÁSTríade: Na semana passada, a Petrobrás fechou três operações simultâneas - a criação da central petroquímica do Sudeste, tendo a Unipar como majoritária e a Petrobrás como minoritária; a conclusão da compra da Suzano Petroquímica pela Petrobrás e a troca de ativos petroquímicos da Petrobrás por ações da Braskem.Valor: Ao fim dos três negócios, a movimentação financeira e a troca de ativos entre as empresas foram de cerca de R$ 10 bilhões. A compra da Suzano foi fechada por R$ 2,6 bilhões. Unipar pagou R$ 380 milhões para se manter majoritária no Sudeste e Braskem aceitou a troca de ativos.Participação: Na nova companhia formada pela estatal com a Unipar, a fatia da Petrobrás será de 40%.Com as operações da semana passada, a Petrobrás passará também a ter 25% do capital total da Braskem. A estatal nega que esteja estatizando o setor.Ameaça do Cade: O prazo para a conclusão da compra da Suzano terminava em 30/11. Caso fechasse apenas esse acordo, a estatal manteria a posição de controlador na petroquímica, e estaria vulnerável no Cade e passível de contestação de empresas do setor. Ação simultânea: O negócio com a Unipar tinha de ser assinado simultaneamente para que a Petrobrás cedesse a posição de controladora da central do Sudeste (que incluiria os ativos da Suzano). Entre 9 e 11 horas do dia 30/11, os acordos foram fechados.Avaliação: A falta de laudos conhecidos no mercado que indicassem o valor das empresas envolvidas comprometeu a avaliação dos analistas. Os especialistas de mercado consideraram difícil avaliar os ganhos ou perdas para a Petrobrás com base nas operações anunciadas.

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