Mary F. Calvert/NYT
Mary F. Calvert/NYT

Dores do aperto

Para o banco central dos Estados Unidos, a experiência recente de outros bancos centrais não é muito animadora

O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2015 | 02h01

Os economistas e os investidores não andam preocupados apenas com o momento em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começará a subir os juros. Igualmente importante para eles é a escala e a duração do próximo ciclo de aperto monetário - a que patamar o Fed pretende elevar os juros e quanto tempo levará para fazê-los chegar lá. De 1955 até hoje, a autoridade monetária submeteu a economia americana a 12 ciclos de aperto, com duração média de pouco menos de dois anos. Em cinco das sete ocasiões mais recentes em que se pôs a apertar o torniquete dos juros, o Fed aliviou a mão depois de 12 meses ou menos, em grande medida porque nas últimas décadas a inflação vem se mostrando relativamente comportada.

Os períodos inflacionários dos anos 70 e o início da década de 80 foram os responsáveis pelas altas mais acentuadas nos juros ao longo desses 60 anos, ajudando a empurrar para 5% a elevação média dos 12 ciclos de aperto. Mas a mediana dessas altas talvez sirva de melhor guia para o ciclo que está para começar: uma taxa pouco acima de três pontos porcentuais.

Os bancos centrais tendem a subir os juros quando o Produto Interno Bruto (PIB) de um país está crescendo em ritmo acelerado e começam a surgir pressões inflacionárias. Se exageram na dose, há o risco de que a economia entre em recessão. Nas seis décadas em questão foi preciso esperar em média aproximadamente três anos, depois do primeiro aperto nos juros, para que o PIB americano engatasse a marcha à ré. No entanto, isso se deve, em parte, ao fato de que recessões são fenômenos regulares. E os apertos monetários não levam inevitavelmente a desacelerações: em 1983, e também em 1994, houve um intervalo de sete anos entre o momento em que o Fed começou a elevar os juros e o início da recessão.

Além do mais, juros em alta não são, necessariamente, má notícia para as bolsas de valores. Em 9 dos últimos 12 ciclos, o mercado acionário americano se valorizou nos 12 meses seguintes ao primeiro aperto nos juros. Como o Fed tende a entrar em ação quando a economia está se expandindo, os lucros geralmente estão crescendo. Por sua vez, só em uma ocasião a rentabilidade (yield) dos títulos do Tesouro americano não subiu (provocando sua desvalorização) no primeiro ano do ciclo.

Um exemplo pertinente talvez seja o do ciclo que se iniciou em 1994. Para ajudar o setor financeiro, que ainda se recuperava da crise das associações de poupança e empréstimo do fim dos anos 80, fazia bastante tempo que o Fed mantinha os juros baixos. Quando finalmente começou a elevá-los, o ritmo do aperto pegou muitos investidores de surpresa, em particular os que tinham posições em títulos lastreados em hipotecas. A administradora de fundos de hedge Askin Capital quebrou.

Aqueles que receiam que o Fed esteja se precipitando mencionam erros na condução da política monetária de outros países. Como a própria presidente do Fed, Janet Yellen, observou em março: "A experiência do Japão ao longo dos últimos 20 anos, e da Suécia mais recentemente, mostra que promover um aperto nos juros quando a taxa real de equilíbrio permanece baixa pode ter custos econômicos consideráveis, fazendo com que a autoridade monetária demore mais tempo para atingir seu objetivo de garantir a estabilidade dos preços".

O Japão foi o primeiro país a reduzir a taxa de juros a zero e o primeiro a lidar com os problemas associados às pressões deflacionárias e ao envelhecimento da população. Em agosto de 2000, o Banco do Japão promoveu uma alta, tirando os juros do zero, muito embora os preços continuassem em queda; dois meses depois teve início uma recessão. Em 2006, uma segunda tentativa de subir os juros também precisou ser revertida dois anos depois.

Problemas similares afligem os bancos centrais que tentaram elevar os juros depois da crise financeira de 2007-2008. O Banco Central Europeu promoveu uma alta em 2008 e outras duas em 2011, quando teve início a crise da dívida na zona do euro. Na Suécia, o Riskbank foi mais ousado e, entre 2010 e 2011, em resposta à alta da inflação, elevou os juros de 0,25% para 2%. No fim de 2011, porém, o banco mudou radicalmente de ideia e atualmente os suecos têm taxas de juros negativas.

A natureza pachorrenta da recuperação que se observa nos países ricos desde a crise financeira, e a permanência dos elevados níveis de endividamento, explica por que tem sido tão difícil para os bancos centrais fazer com que as taxas de juros voltem a seus níveis "normais". Antes, muitos deles costumavam elevar os juros ao mesmo tempo. Agora, porém, qualquer país que resolva promover um aperto nos juros tende a se destacar da manada e corre o risco de ver sua moeda se valorizar, com os investidores acorrendo em massa para aproveitar as rentabilidades mais atraentes. O efeito será uma contração monetária ainda mais aguda, uma vez que o câmbio valorizado reduzirá o preço dos produtos importados, contribuindo para o aumento das pressões deflacionárias. Isso indica que o próximo ciclo, quando começar, será mais curto e menos pronunciado que os anteriores./ Tradução de Alexandre Hubner

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Mais conteúdo sobre:
theeconomist fed yellen

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.