Draghi assume chefia do BCE com desafios em todo lugar

Zona do euro já socorreu Irlanda e Portugal e resgatou a Grécia duas vezes; desafio agora é evitar quebra da economia italiana

Reuters,

31 de outubro de 2011 | 12h54

Vários desafios aguardam Mario Draghi quando ele assumir o comando do Banco Central Europeu (BCE) na terça-feira, com pressão da Alemanha e das economias mais fracas da zona do euro puxando-o em direções diferentes.

O sucesso da presidência de Draghi está ligado aos acontecimentos em sua terra natal, a Itália. Haverá pressão para o BCE agir se o governo italiano não conseguir cumprir as reformas econômicas para impulsionar o crescimento e reduzir a enorme dívida pública.

A zona do euro já socorreu Irlanda e Portugal e resgatou a Grécia duas vezes, mas a quebra da economia italiana, que é a terceira maior do bloco, esgotaria os recursos governamentais ao ponto de ruptura. O BCE, por outro lado, poderia trazer munição praticamente ilimitada.

Draghi parecia indicar na semana passada que estava pronto para ajudar a resolver a crise da dívida da zona do euro, comprando os títulos dos Estados perturbados, embora o presidente de saída, Jean-Claude Trichet, tenha dito à Reuters que os comentários do italiano foram interpretados erroneamente.

A controvérsia sobre o programa de compra de títulos do BCE - iniciado em maio de 2010 - levou ao pedido de demissão de duas autoridades alemãs da instituição, onde muitas pessoas sentem que o plano levou o banco além de sua competência monetária, para a arena fiscal.

Draghi encontraria nova resistência da Alemanha em qualquer impulso para comprar mais títulos, uma ferramenta que ajuda a amenizar os custos de financiamento dos governos, especialmente depois do acordo da UE para elevar o fundo de resgate da zona do euro para 1 trilhão de dólares, permitindo que ele faça o mesmo papel.

O presidente do BC alemão, Jens Weidmann, disse que a crise redefinirá a fronteira entre política monetária e fiscal - uma linha que muitos na Alemanha sentiram ser turvada pelo programa de compra de títulos.

Uma crise italiana levaria esses assuntos para um nível totalmente diferente.

"Se a Itália vacilar, nem mesmo os bilhões que estão indo agora para o fundo de resgate serão suficientes", disse uma pessoa próxima de Weidmann, falando em condição de anonimato.

"Depende dos políticos em Roma para a cúpula ser um sucesso e o BCE poder parar de comprar títulos do governo."

Os custos de financiamento do governo da Itália saltaram para níveis recordes em um leilão na sexta-feira, sublinhando sua vulnerabilidade e o ceticismo sobre se o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi poderá entregar as reformas econômicas prometidas.

Capacidade de comunicação

Os comentários de Draghi sobre a compra de títulos semearam confusão sobre a sua posição antes mesmo que ele assumisse a presidência. O episódio destaca a importância da comunicação em seu novo cargo.

Suas habilidades serão testadas quase imediatamente quando ele enfrentar a mídia na quinta-feira, para apresentar a decisão de política monetária do BCE.

Os mercados financeiros, que se acostumaram à linguagem cifrada de Trichet nos últimos oito anos, ouvirão atentamente para quaisquer alterações de nuance ou abordagem.

O foco de combate à inflação do contingente alemão no Conselho do BCE significa que Draghi encontrará dificuldade para cortar as taxas de juros e estimular o crescimento econômico da zona do euro. Draghi disse, na semana passada, que a região enfrenta significativos riscos de desaceleração.

Tudo o que sabemos sobre:
MACRODRAGHIBCE*

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.