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Draghi, Mefistófeles e a máquina de imprimir dinheiro

ANÁLISE: Gilles Lapouge

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2015 | 02h04

Esta é a semana de Davos, o encontro "chique" que os reais senhores do mundo realizam todo ano numa estação elegante dos Alpes suíços, entre o céu e neves eternas, para preparar as economias para os desafios do novo ano. Mas neste ano o grande coquetel de Davos será ofuscado por um outro acontecimento: o presidente do Banco Central Europeu (BCE) Mario Draghi, vai se manifestar.

Draghi lançará a ofensiva contra a deflação. Os últimos dados são inquietantes: na Europa a inflação está morta, que problema! O custo de vida insiste em baixar. Eis porque Mario Draghi vai soltar as rédeas para reativar a economia. Vai provocar a inflação realizando aquisições de dívidas públicas, o que significa colocar em funcionamento a "máquina de imprimir dinheiro".

A maior parte dos países europeus, esgotados por causa da austeridade, aprovam esse "remédio de cavalo". Salvo a Alemanha. Nesse país a inflação é considerada veneno mortal. A ideia de relançar a inflação é considerada uma aberração do demônio.

Por que essa fobia da inflação por parte dos alemães? A resposta é conhecida: após a guerra de 1914, a Alemanha enfrentou uma inflação tão monstruosa que as famílias iam ao mercado com pilhas de cédulas de dinheiro em carrinhos, às vezes de carroças. Essa é a explicação comum para o temor dos alemães (um pouco como os brasileiros) diante de qualquer ameaça de inflação.

Mas no caso da Alemanha existem ainda outras razões, filosóficas e religiosas. Segundo Max Weber, o capitalismo nasceu em razão da reforma protestante e especialmente pelas pregações de Calvino, que glorificava o trabalho e sobretudo quem autorizava o empréstimo de dinheiro.

O atual presidente do Bundesbank (banco central alemão), Jens Weidmann, acrescenta à influência do protestantismo outra mais recente, de Goethe, em sua peça Fausto, publicada a título póstumo em 1832.

Mefistófeles, disfarçado de bufão, dirige-se ao Imperador, que se debate em meio a enormes problema financeiros, nestes termos: "A penúria reina neste mundo. Tal país recebe isto, outro recebe aquilo. Mas, na verdade é o dinheiro que nos falta".

O Imperador responde finalmente às hábeis tentativas de Mefisto para convencê-lo: "Não temos dinheiro, é verdade, e o que o senhor espera para consegui-lo para nós?". E então o diabo orienta o Imperador a imprimir bilhetes nos quais estará escrito: "Este papel vale mil coroas".

Assim, na sua luta contra a inflação e em favor da criação de uma moeda fictícia, Mario Draghi simplesmente seguirá o caminho de Mefisto, o que é incrível no caso de um antigo aluno dos jesuítas.

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