Draghi não vai a reunião anual de BCs

Presidente do Banco Central Europeu estaria envolvido em novo plano de compra de títulos para combater a crise da dívida na Europa

LANDON THOMAS JR., THE NEW YORK TIMES / LONDRES, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2012 | 03h07

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, não vai participar do encontro anual de membros de bancos centrais em Jackson Hole no fim desta semana. Esperava-se que Draghi discursasse no encontro, mas a reunião no Estado americano de Wyoming acontece no momento em que as autoridades do BCE estão elaborando os detalhes de um novo plano de compra de títulos para combater a crise da dívida.

Draghi ajudou o euro a sobreviver no mês de agosto. A pergunta é: conseguirá salvá-lo em setembro? Este mês, o presidente do BCE não deu a menor importância ao pessimismo dos operadores internacionais, convencidos de que o projeto da moeda única europeia estava entrando em colapso.

"É inútil apostar contra o euro. É inútil vender posições em euros no mercado futuro", disse em uma coletiva no dia 2, uma semana depois de bradar ao mundo que o BCE faria tudo o que fosse necessário para salvar a união do euro.

Os investidores, ou pelo menos os que se aventuraram nos mercados pouco negociados neste mês, ficaram atentos.

Desde o dia 2, o euro vem apresentando uma valorização de 3,1% em relação ao dólar. E o que é mais notável, ações e títulos afetados pelo mercado subiram vertiginosamente, porque os pessimistas correram para zerar suas apostas negativas, e até mesmo alguns operadores avessos ao risco preferiram ir em busca dos ativos que anteriormente haviam desprezado.

Entretanto, será o mês de setembro que testará de fato a coragem demonstrada por Draghi para fazer o mercado se mexer. No próximo mês, ele sofrerá fortes pressões para fornecer detalhes específicos do seu plano destinado a respaldar os membros mais fracos da zona do euro comprando os títulos de suas dívidas.

O primeiro grande teste poderá ocorrer no dia 6 de setembro, quando o Conselho Diretor do BCE se reunir. Depois disso, Draghi, mais uma vez, fará uma coletiva para tentar explicar o que o banco central fez ou deixou de fazer. Os operadores pessimistas deverão, mais uma vez, estremecer a qualquer sinal de hesitação do BCE.

Além disso, teme-se que a Alemanha se recuse a dar à Grécia o tempo e os recursos imprescindíveis para reduzir o seu endividamento, que poderá expulsá-la do bloco monetário do euro. E há também a possibilidade de que uma decisão da Corte Constitucional da Alemanha, prevista para o dia 12 de setembro, determine o não envolvimento da Alemanha no novo fundo de ajuda da região, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).

Divisão. O cisma nos círculos políticos europeus acabou sendo revelado nos últimos dias. Em uma entrevista à revista Der Spiegel, publicada no domingo, o presidente do banco central alemão, Jens Weidmann, que também faz parte do Conselho Diretor do BCE, criticou energicamente a ideia de uma intervenção do banco europeu nos mercados de títulos.

Mas na segunda-feira, Joerg Asmussen, membro alemão do Conselho Executivo do BCE, que foi colega de Weidmann no governo da chanceler Angela Merkel, disse em um discurso em Hamburgo que o BCE precisa comprar títulos para estabilizar os mercados da dívida.

As apostas para Draghi são tão elevadas que, ontem, o BCE anunciou que ele decidira cancelar sua participação na reunião anual dos presidentes de bancos centrais globais no fim desta semana, alegando estar assoberbado de trabalho.

Apesar das incertezas, até os mais acirrados pessimistas em relação ao euro agora parecem dispostos a dar a Draghi o benefício da dúvida. E se ele conseguir sustentar sua posição no mercado, terá resolvido um problema que atinge o cerne desta prolongada crise do euro: como convencer os operadores a comprarem e segurarem ações e títulos denominados em euros das economias de maior risco da região.

"Vocês não vão voltar para a lira ou para a dracma ou seja lá o que for", declarou Draghi na mesma coletiva no início de agosto.

Referindo-se à moeda anteriormente em vigor em seu país de origem, a Itália, e colocando-a no mesmo nível da combalida Grécia, Draghi - que teve um papel fundamental na criação do euro - assinalou que estava tomando o ceticismo dos pessimistas em termos pessoais.

Ação. Do ponto de vista dos mercados financeiros, ele mostrou ter grande poder de fogo ao sugerir que o BCE poderá comprar os títulos de países como Espanha e Itália, se estes se comprometerem a cumprir as rigorosas medidas destinadas a reduzir os déficits e a reestruturar suas economias.

Desde que Draghi tomou as rédeas do BCE em Frankfurt, no fim do ano passado, os investidores apostam que ele não conseguirá convencer o maior financista da zona do euro, o BC da Alemanha, a apoiar qualquer forma de compra sustentada de títulos porque seria considerada uma ajuda a governos dados a gastos descontrolados.

Entretanto, atualmente vem se espalhando a percepção de que Draghi pode estar perto de convencer a Alemanha de que alguma forma de intervenção do banco central - por exemplo, comprometendo-se a comprar títulos espanhóis ou italianos quando eles subirem acima de determinado juro - pode se justificar. O desafio é apresentá-la simplesmente como mais um passo rumo à união fiscal se os membros da zona do euro em grave dificuldade cederem a Bruxelas uma parte maior do controle sobre seus orçamentos. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.