Horus Aeronaves
Horus Aeronaves

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

Pensou em lavoura conectada, pensou em drone. Se o mundo ainda vem descobrindo a versatilidade dos veículos aéreos não tripulados (vants), criados para fins militares, o agronegócio foi um dos primeiros setores a apostar nessa tecnologia – que revolucionou o monitoramento da produção agrícola. Pequenos e leves, os drones, munidos de câmeras e sensores, captam imagens de resolução muito superior às de satélite. Assim, detectam com precisão focos de pragas, estresse hídrico, déficit de nutrientes e danos ambientais, aumentando a produtividade e poupando recursos.

Há alguns anos, os produtores tinham de recorrer a aparelhos importados. Hoje, diversas empresas brasileiras já desenvolvem tanto equipamentos quanto softwares – e até exportam essa tecnologia. 

Uma das pioneiras do ramo foi a Horus Aeronaves, que desenvolve drones para mapeamento em agricultura, topografia e mineração. A startup foi criada por três engenheiros mecânicos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2014, em um programa de empreendedorismo.

Em abril deste ano, a empresa recebeu aporte de R$ 3 milhões da SP Ventures, gestora de fundos de investimentos de capital de risco. O valor foi repassado por meio do Fundo de Inovação Paulista (FIP). Com o aporte, a empresa abriu uma filial em Piracicaba (SP), considerada o polo tecnológico do agronegócio.

“O esforço da Horus é popularizar e tornar o uso do equipamento mais atrativo para o produtor”, afirma Fabrício Hertz, presidente da empresa. “Além disso, a agricultura brasileira é tropical, com uma série de características à parte em relação a outros países do mundo, como os Estados Unidos. Portanto, é preciso produzir uma tecnologia própria”, diz. 

As aeronaves da Horus são programadas via GPS e podem ser controladas remotamente. Os equipamentos são feitos à base de fibra de carbono, que proporciona mais leveza e resistência. Um vant da empresa custa, em média, R$ 70 mil. 

Na Agrishow deste ano, maior feira de tecnologia da América Latina, que ocorreu em Ribeirão Preto (SP) em maio, a Horus lançou seu terceiro modelo: um drone com autonomia de duas horas de voo, capaz de mapear até 5 mil hectares de área.

Além dos equipamentos, a empresa desenvolve softwares que processam e interpretam os dados coletados por meio de tecnologias embarcadas com sensores e sistemas de inteligência. “Tudo que o aparelho detecta no campo a gente transforma em informação: problema nutricional, porcentual de falhas na plantação e deficiência hídrica, por exemplo”, diz Hertz. Com base nas imagens coletadas pelo drone, a empresa produz um relatório, que é enviado em até 48 horas para o produtor. “Assim, ele tem muito mais informações para as suas tomadas de decisão”, pontua.

No ano passado, a empresa expandiu seu mercado para o exterior e já tem presença na Argentina, Peru, Uruguai, Chile e Paraguai. 

Regulamentação. Em maio, porém, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) regulamentou o uso de vants em todo o território brasileiro, a fim de garantir a segurança nas operações e padronizar os procedimentos.

Dentre as novas obrigações está a exigência de licença e habilitação do órgão para controlar equipamentos com mais de 25 quilogramas. Vants mais leves ou que voem abaixo de 121 metros precisam apenas de um cadastro no site da Anac.

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Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

Já faz tempo que o campo virou paradigma de avanço tecnológico no País. Foi com ele que o agronegócio passou a ostentar grandes cifras e bater recordes de produtividade ano a ano. Na fronteira dessa inovação se encontra uma safra de jovens empreendedores, de 20, 30 e poucos anos, que usam big data, internet das coisas e até o conceito de economia compartilhada para revolucionar a maneira como o produtor cuida da lavoura e do seu negócio.

De acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), nos últimos dois anos, quase quadruplicou a quantidade de startups ligadas à agricultura – as chamadas agritechs, ou agtechs. Hoje, estima-se que haja cerca de 200 no País. Essas empresas, muitas incubadas em universidades, desenvolvem soluções em agricultura de precisão, monitoramento de lavoura e automação de equipamentos.

Essas tecnologias não só reduzem custos como otimizam recursos. A Agrosmart, por exemplo, promete economia de até 60% da água utilizada para a irrigação das lavouras. Com sensores espalhados pela plantação, o sistema mede indicadores como umidade e temperatura do solo, direção do vento e radiação solar para informar a quantidade que cada parte da plantação necessita, bem como o horário mais econômico para a irrigação. “Rodamos algoritmos para saber a quantidade exata que o produtor deve usar”, explica o sócio Raphael Pizzi. “Temos um outro produto que é o de controle, pelo qual o produtor consegue ligar o sistema de irrigação remotamente, pelo smartphone.” 

A ideia do negócio veio da sócia-fundadora Mariana Vasconcelos, filha de produtores de milho em Itajubá (MG), durante seca que castigou a região Sudeste em 2014. Com dois amigos de infância e dinheiro do bolso, foram lançados os primeiros protótipos – testados na lavoura do pai de Mariana. 

A trajetória foi ascendente: em 2015, foram premiados pela Nasa e tiveram acesso a um programa de transferência tecnológica. Depois, a startup foi acelerada pelo Google, o que lhes rendeu US$ 80 mil em investimento e uma temporada de três meses no Vale do Silício, nos EUA. No mês passado, a empresa deu seu pontapé no exterior: com um parceiro local, inaugurou uma filial nos Estados Unidos. 

“Agora, estamos captando uma segunda rodada de investimentos e queremos, no primeiro semestre do ano que vem, focar na expansão Latam: Colômbia, Chile e Argentina”, diz Pizzi. Este ano, o faturamento previsto da empresa é de R$ 10 milhões.

 

Da sala de aula aos negócios. As agritechs têm uma relação forte com a academia, uma vez que várias dessas startups são incubadas em universidades, como a EsalqTec, da USP, em Piracicaba (SP) – além do apoio de instituições como a Embrapa. Segundo o Censo Agritech Startups Brasil, de dezembro de 2016, 53% dessas empresas têm membros com algum tipo de pós-graduação.

“Em relação a fintechs, por exemplo, ainda estamos muito atrasados em relação a outros países. Agora, no agronegócio... o que está saindo das universidades não deixa nada a desejar”, afirma Francisco Jardim, sócio-fundador da SP Ventures, fundo de investimento de capital de risco focado no agronegócio. 

Apesar do avanço de fundos de investimento e programas de aceleração, ainda faltam recursos. De acordo com a pesquisa, 80% encontraram dificuldades para captar investimentos – e 42% financiaram o negócio do próprio bolso. “Precisamos de novas linhas de crédito para esse mercado, além de visão de negócio – muitos empreendedores que saem da academia pensam como cientistas, e não como empresários”, observa Mateus Mondin, professor da Esalq-USP e um dos responsáveis pela pesquisa. Para ele, apesar de ainda haver muita desconfiança, a tendência é que haja uma adoção gradativa e crescente das novas tecnologias. “Há soluções para todos os portes e bolsos, do grande produtor à agricultura familiar. Essas empresas estão fazendo uma verdadeira revolução na agricultura.”

Maikon Schiessl, diretor do comitê de agritech da ABStartups, concorda. “O agricultor do passado ficou para trás, ele hoje é conectado: 67% dos produtores usam o Facebook e 96% o WhatsApp, inclusive para os negócios. Eles precisam de soluções novas, digitais – e essas empresas estão entregando.”

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‘Uber dos tratores’, aplicativo aluga máquinas

Se a economia compartilhada é a bola da vez, o agronegócio não poderia ficar de fora. Criado há pouco mais de um ano, a Alluagro, de Uberlândia (MG), funciona como uma espécie de Uber das máquinas agrícolas, a fim de minimizar a ociosidade dos equipamentos. </p>

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

Por meio de um aplicativo, o produtor pode ofertar ou alugar máquinas de qualquer parte da cadeia produtiva, do preparo do solo até o transporte para escoar a produção: um arado, um trator, uma colheitadeira ou até um caminhão. Por meio de geolocalização, a plataforma mostra a máquina mais próxima disponível.

“Hoje, para investir em imobilizado, é preciso ter no mínimo mil hectares de terra para compensar. Mesmo assim, há máquinas que custam milhões e só são usadas no período da colheita”, explica o sócio Marco Aurélio Chaves. “É como ter um Mercedes parado na garagem e só usar duas vezes no ano”, brinca.

Chaves conta que o Alluagro surgiu depois de uma conversa com o seu tio, produtor de soja no Mato Grosso. Ele alugou uma colheitadeira no fim da safra, mas a máquina quebrou – e os oito dias parados lhe custaram R$ 65 mil. “O mercado de aluguel de máquinas é muito desorganizado e amador. Muitas vezes, nem há contrato, e muita gente dá cano”, explica. “Então, a empresa surgiu da necessidade de profissionalização e segurança.”

As transações são feitas pelo marketplace da Alluagro, que faz uma curadoria técnica dos equipamentos. A empresa, que já tem mais de 600 máquinas cadastradas, fica com uma margem de 5% a 7% da transação. Em maio, a empresa iniciou o processo de aceleração pela Ace, maior aceleradora de startups do País.

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Contratos agrícolas ganham versão eletrônica

A inovação gerada pelas chamadas “agrotechs” quer revolucionar não só as técnicas de produção no campo, mas os contratos das operações. Usando a mesma tecnologia que está por trás da moeda digital bitcoin, a londrinense Bart Digital automatiza e simplifica as tradicionais operações de “barter” – em que o agricultor troca sua produção por insumos agrícolas. </p>

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

“A nossa plataforma quer agilizar e dar mais transparência à formação dos contratos de crédito agrícola”, diz a cofundadora Mariana Bonora. A motivação veio de sua própria experiência profissional. “Eu era advogada numa indústria de insumos e tínhamos muitos problemas no quesito velocidade, pois são contratos complexos e que envolvem muitas partes”, diz. 

O objetivo da startup, explica ela, é eliminar o “vai e vem de papel” e substituir esses contratos por operações eletrônicas, integrando produtores e indústria, de revendas a tradings. A digitalização das operações, além de agilizar o negócio, também contribui para diminuir os riscos e a volatilidade do mercado. 

Para automatizar os contratos, a plataforma usa assinatura digital, processo que decodifica e valida essas transações eletrônicas. Outra tecnologia utilizada é o blockchain – que ficou mais conhecida pelo bitcoin –, que consiste em uma rede global de validação e registro de transações de forma rápida e segura, eliminando a necessidade de um intermediário. 

O pontapé do negócio surgiu em uma maratona hacker de agronegócio em Londrina (PR). Agora em Indaiatuba, interior de São Paulo, a empresa foi incubada pela EsalqTec e começou em junho processo de aceleração pela Startup Farm.

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