Duas alavancas do desenvolvimento

Argumentamos neste espaço que a agroindústria brasileira é muito mais sofisticada do que geralmente se pensa, utilizando o caso da cadeia da cana-de-açúcar como exemplo. O olhar antigo que vê no setor apenas pobreza e baixa produtividade foi e continua sendo superado pelo desenvolvimento de um complexo produtivo único, tropical, de grandes proporções, inovador, dinâmico e fortemente integrado às áreas industriais e de serviços.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Essa construção demandou quatro décadas.

O ponto de partida foi a existência de uma farta disponibilidade de terra. Estima-se que, mesmo hoje, exista uma área a ser aproveitada superior a 100 milhões de hectares na região do Cerrado (fora da região da Floresta Amazônica, portanto), além de uma enorme área de pastagens de baixa produtividade, que já estão sendo convertidas para lavoura. Sobre essa base, o avanço da pesquisa consolidou-se pelo desenvolvimento generalizado do Sistema de Plantio Direto.

Tecnologia. Clima tropical requer proteção do solo; entretanto, o cultivo tradicional e o modelo de mecanização a ele atrelado mostrou-se inadequado nesse regime climático. O plantio direto, juntamente com nutrição de plantas e desenvolvimento genético garantiu um expressivo aumento da produtividade da agricultura na região central do País.

O domínio tecnológico da agricultura, em ambiente tropical, permitiu que a natural abundância de solo, luminosidade, temperatura e água fossem utilizadas para elevar a produtividade da agricultura. Além disso, novas tecnologias continuam a ser desenvolvidas, tanto pelo setor público como pelo setor privado.

Como resultado do plantio direto, duas safras passaram a ser cultivadas no mesmo ano; foi também possível desenvolver sistemas de integração de lavoura e pecuária, alternando verão e inverno ou fazendo rotação entre anos.

Nesses sistemas há um impacto direto na qualidade da produção de carne, pois o processamento da safra resulta em subprodutos que podem ser utilizados em rações de confinamento, semiconfinamento ou suplementação a pasto o que amplia a produtividade da pecuária junto com técnicas de melhoramento genético, liberando áreas para a agricultura. Por exemplo, a expansão da cana-de-açúcar na região noroeste do Estado de São Paulo tem sido feita, essencialmente na área de antigos pastos. Milhões de hectares adicionais de pastos serão liberados nos próximos anos.

Qualificação. Em paralelo a esse avanço tecnológico, o setor agropecuário e o Estado investiram fortemente no desenvolvimento de recursos humanos tanto em nível médio como superior. Em meio a uma escassez generalizada de mão de obra qualificada, que se observa no País, o setor agropecuário é, talvez, o mais bem servido.

Diversificação. Um aspecto interessante do agronegócio brasileiro é o amplo número de produtos estruturados em uma cadeia completa. Açúcar e álcool, laranja, café, soja, algodão, madeira, frutas, tomate, carnes, leite, ovos, flores e hortaliças encontram-se presentes no País. Essa diversificação garante estabilidade ao sistema.

Demais nota-se que o Brasil tem, além da diversificação das exportações, um grande mercado interno para esses produtos. Apenas no caso do trigo ainda dependemos de grandes volumes de importação, o que joga a favor da segurança alimentar.

Queda de preços. O mais espetacular resultado dessa evolução foi uma queda persistente no custo real da alimentação. Juarez Rizzieri e eu mostramos, em pesquisa para a Embrapa, que o custo no varejo de São Paulo de uma ampla cesta de alimentos caiu pouco mais de 5% ao ano, em termos reais, entre 1975 e 2005.

Essa situação perdura até hoje, reforçando a capacidade de compra das populações de baixa e média renda, em termos de produtos industriais de consumo. No caso brasileiro é falso que exista uma dicotomia entre a produção de alimentos e de energia. Artefatos como deserto verde, "não como eucalipto", etc. são apenas pobres argumentos ideológicos, úteis apenas para certos grupos extorquirem dinheiro público. Ademais, o setor não deve e não precisa destruir a floresta tropical para crescer e produzir.

Fertilizantes. O tamanho do sistema agropecuário brasileiro implicou também o desenvolvimento de uma significativa indústria de insumos como fertilizantes, defensivos, sementes, suplementos, rações, produtos veterinários e outros. Assim como uma indústria de equipamentos, tratores e implementos de grande proporção.

Nessas áreas também nota-se um fluxo de inovações tecnológicas muito significativas que permitem projetar continuidade da elevação da produtividade do sistema como um todo.

Inovação. Finalmente, assim como mostramos no caso da cana-de-açúcar na última coluna aqui publicada, essas cadeias produtivas estão cada vez mais longas, integrando agricultura, indústria e serviços. Novos produtos seguem sendo pesquisados e lançados.

Apenas como exemplos recentes lembro aqui os aviões movidos a etanol e lançamentos próximos na área de motores (a MWM e a AGCO/Delphi trabalham independentemente para lançar motores que combinam etanol e biodiesel e etanol e diesel), a utilização de biodiesel em locomotivas (Vale) e em plásticos (além daqueles oriundos da cana) biodegradáveis, como o Ecobrás, um copolímero obtido de um poliéster biodegradável certificado e fabricado pela Basf e um polímero vegetal desenvolvido pela Corn Products e produzido no Brasil. Este pode ser usado para produção de peças injetáveis, filmes, bobinas e sacolas plásticas.

Em resumo, a expansão do conhecimento e da inovação, de um amplo setor industrial e de serviços sofisticados é parte integrante, e não antagônica, do crescimento do agronegócio.

Ademais, o Brasil é o único país do mundo que pode elevar de forma significativa a produção de alimentos, energia e fibras em prazo relativamente curto.

Exportações. Existe hoje uma grande oportunidade para o agronegócio brasileiro que decorre de três fatores: da entrada no mercado de consumo de alimentos de centenas de milhões de pessoas na Ásia; da demanda de biocombustíveis e, finalmente, da crescente demanda por parte da indústria química (plásticos, solventes, especialidades). Apenas para lembrar, a rede de supermercados Carrefour pretende abolir as sacolas plásticas de sua operação mundial em pouco mais de três anos.

Embora não tenha sido tratado aqui, é sabido que a evolução da renda real dos consumidores brasileiros, nos últimos anos, tem sido positiva em todas as faixas de renda, levando a uma crescente massificação do mercado interno de produtos industriais.

O aproveitamento das oportunidades de exportação abertas ao agronegócio e aquelas dadas pelo mercado doméstico de produtos industriais são duas alavancas fundamentais do desenvolvimento brasileiro. Cabe a nós aproveitá-las.

Para tanto é fundamental reverter a perda de competitividade que vem ocorrendo pela deterioração da infraestrutura, pela escassez de mão de obra qualificada, pela elevação dos custos da energia elétrica e do gás natural para a indústria, pelas disfunções do sistema tributário, pela piora na regulação econômica, e etc.

Câmbio. Pedir uma intervenção que coloque o dólar a R$ 2,40 é uma solução aparentemente fácil, mas que alterna o impossível (imaginar que podemos nos transformar numa China) e o fracasso, como no caso da Argentina.

Voltaremos a isso no nosso próximo encontro.

Economista da MB Associados

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