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Duas coleções de aparelhos (sem uso)

Adriana e Luciane não parecem ter muito em comum. Adriana é a única policial civil da cidade. Transferida de General Carneiro, também no Paraná, onde descende de uma família de homens da lei, foi responsável por reabrir a delegacia de Paulo Frontin, que funciona com a ajuda de um recepcionista cedido pela prefeitura. Luciane, cheia de arranhões no rosto e hematomas nos braços, esperava para fazer um exame de corpo de delito. Arranjou briga durante um baile no fim de semana, mas garante que não foi só ela que saiu machucada na confusão: "Quebrei o dente de uma".

O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h08

Os caminhos da policial Adriana Ferraz e da desempregada Luciane Alves - que recusou ser fotografada e só aceitou ser identificada pelo nome de solteira - cruzaram-se durante uma madrugada: Adriana compareceu à ocorrência que fechou o baile do sábado retrasado e passou um sermão nas brigonas, liberando-as para tratamento no hospital logo depois. "É briga causada pelo álcool, sabe como é", disse a policial. Adriana e Luciane têm, no entanto, algo mais em comum: na cidade ainda sem sinal, cultivavam o hobby de colecionar aparelhos.

Onze e meia da manhã de segunda-feira, latinha de cerveja Skol à mão, Luciane usou diferentes argumentos para explicar tantos telefones celulares que não funcionam: os filhos jogam videogame, ela ouve rádio para ajudar o tempo passar ou vai de carro até o posto de gasolina na saída da cidade para mandar mensagens. "Tenho pelo menos uns seis aparelhos, sem contar os que ficaram jogados pelas gavetas na última mudança", contou Luciane, que recentemente deixou a casa de um namorado e agora vive com a mãe. Hoje, coleciona um "Nokia básico", um smartphone "do mais simples" e outros tantos comprados no canto da cidade conhecido como "Paraguai", que reúne lojinhas de produtos de Ciudad del Este.

Variedade. Já a policial Adriana tem a estética em mente ao escolher um novo aparelho: prefere o colorido externo à tecnologia. Tem um modelo cor de rosa, um vermelho e outro dourado. Todos permaneceram quase mudos nos últimos dois anos, desde que Adriana se mudou para Paulo Frontin - só pegavam em cantos escondidos da zona rural. E justamente o Nokia mais simples demonstrava mais talento para captar sinais longínquos. Preocupada em tirar a fotografia para a reportagem, a policial fez questão de tomar banho e arrumar-se antes do "grande momento": escolheu um vestido tomara que caia com motivos florais, calçou sapatos de salto vermelhos e penteou o cabelo para trás, espalhando os celulares cuidadosamente sobre a mesa. "Na minha profissão, a gente não pode esquecer da feminilidade."

A falta do celular já atrapalhou o trabalho de Adriana. Ao atender ocorrências, a policial era obrigada a voltar à delegacia para resolver pendências por telefone. Há algumas semanas, um crime chocou a sociedade frontinense: uma briga entre famílias acabou com um rapaz morto - os inimigos esticaram arame farpado na estrada, e a vítima acabou atingida no pescoço. Sem poder resolver questões pelo telefone com o funcionário que a ajuda na delegacia, fez várias viagens até a cena do crime para identificar e prender os dois responsáveis pela brincadeira de mau gosto. "Ninguém avisou que não tinha celular aqui quando me transferiram."

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