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Duas Internets

Whatsapp e WeChat são símbolos de diferenças culturais que podem trazer consequências significativas para Internet

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2020 | 05h00

O aplicativo que faz parte da vida de praticamente qualquer cidadão chinês em seu dia-a-dia não é muito conhecido por aqui: trata-se do WeChat, com mais de um bilhão de usuários diários. O WeChat foi lançado em 2011 como “Weixin” (ou “micro mensagem” no idioma original) e pertence ao grupo chinês Tencent Holdings — uma das empresas mais valiosas do mundo, com valor de mercado de aproximadamente US$ 650 bilhões no final de agosto de 2020. A Tencent, fundada em 1998, atua em múltiplas áreas ligadas à tecnologia: videogames, mídia social, música, comércio eletrônico, sistemas de pagamento e smartphones, além de possuir investimentos em centenas de empresas de diversos tamanhos e com focos variados — incluindo big data, engenharia aeroespacial, drones, robótica e fintech.

Mas se na sua origem o WeChat lembrava muito o WhatsApp, amplamente conhecido e utilizado em diversas partes do mundo (vale mencionar que por pouco a Tencent não adquiriu o WhatsApp, que acabou comprado pelo Facebook em 2014), seus caminhos acabaram divergindo. Considerando a forte atuação da Tencent no mercado de games, o WeChat integrou jogos e pagamentos digitais à sua plataforma. Atualmente, poucas tarefas do cotidiano de um usuário na China precisam ser resolvidas fora do ambiente do aplicativo: você pode pedir comida, um serviço de transporte privado, pagar suas contas, reservar um hotel, doar para instituições de caridade, reservar um voo ou comprar um ingresso de cinema — tudo via WeChat. 

O movimento do Whatsapp na direção de se tornar um aplicativo de pagamentos estava planejado para ocorrer inicialmente no Brasil, mas depois da proibição do Banco Central em junho deste ano, seguida da autorização para testes no mês seguinte, ainda não há data para isso ocorrer (o próprio BC irá lançar uma ferramenta de pagamentos, o Pix). Quem deve se beneficiar disso é a Índia, onde o WhatsApp possui uma base de cerca de 350 milhões de clientes e onde a funcionalidade de pagamentos parece próxima do lançamento oficial.

Utilizar a Internet na China é bem diferente de utilizá-la no Ocidente. Diversos serviços fornecidos pela Google não estão disponíveis (busca, e-mail, YouTube), assim como não é possível utilizar o Facebook, Twitter ou Instagram sem uma VPN (Virtual Private Network, ou Rede Privada Virtual). VPNs criam uma conexão segura com outra rede pela própria Internet, permitindo que a real localização do usuário seja oculta e que endereços restritos em determinada região geográfica sejam acessados. 

A polarização ideológica entre Estados Unidos e China, que discutimos aqui, pode estar seguindo a passos largos para uma divisão até pouco tempo difícil de imaginar: uma cisão da própria Internet. Em um evento realizado em setembro de 2018, o ex-CEO da Google, Eric Schmidt, declarou que “[...] o cenário mais provável agora não é uma fragmentação, mas uma bifurcação entre a Internet liderada pela China e uma Internet não-chinesa liderada pela América [...]” e prosseguiu: “Eu acho que você verá uma liderança fantástica em produtos e serviços da China. Existe um perigo real de que, juntamente com esses produtos e serviços, venha um regime de liderança diferente do governo, com censura, controles etc.”.

No início de 2019, no Fórum Econômico Mundial de Davos, Kaifu Lee (responsável pelas operações da Google na China entre 2005 e 2009 e atualmente responsável pelo fundo de venture capital Sinovation Ventures, em Pequim) declarou: “[...] não será a China e o resto do mundo. Será a China e os países que adotam aplicativos chineses e os países que adotam aplicativos americanos”, indicando que “embora os aplicativos chineses dificilmente sejam adotados nos EUA e na Europa e nos países de língua inglesa, acho que eles estão demonstrando sua rápida aceitação na Índia, Sudeste Asiático, América do Sul, Oriente Médio e até um pouco na África. Então, acho que em cinco anos, se você olhar para todas as pessoas no mundo que pegaram o telefone e contaram quantos aplicativos chineses e americanos foram utilizados, eu diria que o resultado seria metade para cada lado”.

Essa complexa disputa envolve dominância militar, tecnológica, ideológica e de infraestrutura, com relevantes consequências para cadeias de comércio e de negócios ao redor do mundo. Esse será o tema de nossa próxima coluna. Até lá.

* Guy Perelmuter é fundador da GRIDS Capital e autor do livro Futuro Presente - o mundo movido à tecnologia, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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