Felipe Rau/Estadão
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Duas leituras para o mesmo PIB

Governo precisa acelerar nas propostas para evitar o mesmo crescimento de 1% médio dos últimos anos

Sergio Vale*, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 04h00

Os indicadores de atividade do segundo trimestre estão corroborando o que se imaginava no princípio da pandemia, ou seja, que seria um resultado negativo histórico. A prévia de PIB do Banco Central, o IBC-Br, reforça uma queda de PIB da ordem de 14% na comparação com o mesmo trimestre do ano passado. Mas há duas leituras a serem feitas aqui.

A primeira é que, apesar de esperado um número forte, havia expectativa de algo ainda pior. A parada súbita vista em abril impressionou e setores como o automobilístico, com queda de 99%, davam sinais de um trimestre sombrio. Entretanto, abril parece ter sido o pior momento de fato, o fundo do poço, com uma recuperação muito tímida começando a acontecer, mais rapidamente em comércio e indústria, e ainda para acontecer em serviços. Os indicadores de confiança de junho e os dados preliminares de indústria do mês passado, que apontam uma queda de “apenas” 11% contra o mesmo mês do ano anterior, sinalizam que o trimestre terminou menos nebuloso do que começou.

A outra leitura é mais negativa e olha para a frente vendo dois fantasmas que terão impacto relevante nas expectativas de crescimento futuro. De um lado, o mercado de trabalho em deterioração será de difícil reversão. A taxa de desemprego implícita, considerando apenas as pessoas que saíram da força de trabalho apenas por conta da crise, já estaria acima de 17%. Em que pese a ajuda do auxílio emergencial na renda média do brasileiro, o efeito da massa de desempregados e desalentados que teremos pela frente demandará um esforço árduo para que o crescimento aconteça para reinserir essas pessoas. Vale lembrar que o parco crescimento que tivemos depois da crise de 2016 sancionava uma taxa de desemprego que em fevereiro deste ano ainda estava em 11,5%.

Por outro lado, a dívida bruta de quase 100% do PIB que teremos no final do ano demandará esforços adicionais de contenção. Não está claro o que o governo pretende fazer, mas não ajuda o discurso do ministro da Economia de que a prioridade é o emprego, como se a questão fiscal estivesse muito bem encaminhada. Não está. Pelo contrário, as pressões são de aumentos de gastos por todos os lados, uns mais meritórios, como na saúde e no programa de renda básica, outros nem tanto, como em investimento público, que no final não deve acontecer. A pressão em cima da regra do teto será muito forte nesse mundo novo pós-pandemia com política fiscal mais ativa.

O governo precisa acelerar nas propostas para evitarmos repetir o crescimento de 1% médio que tivemos nos últimos anos que, por ora, parece que pode se repetir.

*ECONOMISTA-CHEFE DA MB ASSOCIADOS

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