Duhalde acha chefe da missão do FMI "uma incógnita"

"Ele é totalmente uma incógnita". Com estas palavras, o presidente Eduardo Duhalde definiu o indiano Anoop Singh, chefe da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Argentina. Hoje, após um encontro com Singh, o presidente Duhalde comentou surpreso que o enviado do Fundo "não teve uma experiência sequer neste continente". No entanto, tentou encontrar um ponto positivo no homem que analisará que tipo de ajuda financeira o FMI concederá ao país. "Deve ser uma pessoa formada para este tipo de problemática".Nas reuniões entre Singh e o governo, a missão do FMI deixou claro que ainda não está satisfeito com a concretização de uma série de medidas tomadas pelo governo argentino, e que eram exigências do organimos internacional. Entre as medidas, estava a aprovação do Orçamento Nacional, o acordo financeiro com os governadores e a livre flutuação do peso em relação ao dólar. O vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, afirmou que o FMI "tem a intenção de trabalhar rápido" para conceder a ajuda financeira para o país. No entanto, Todesca admitiu que o acordo "poderá levar algum tempo". O vice-ministro sugeriu que o país ainda terá tarefas a cumprir, a pedido do Fundo, embora não tenha especificado quais: "o acordo dependerá de cumprir todas as etapas pedidas pelo FMI. Mas já cumprimos com boa parte da agenda". Extra-oficialmente divulgou-se que Singh, durante um almoço com o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, e o presidente do Banco Central, Mario Blejer, expressou suas dúvidas sobre o cumprimento do acordo financeiro assinado com os governadores. Este tipo de acordo, entre a União e as províncias, na última meia década costumou ser nada mais do que um papel, sem o cumprimento da maioria dos compromissos dos dois lados. Os comentários de Singh, afirmam os presentes, tornou mais difícil a digestão do frango grelhado e das batatas noisette, o clássico e austero menu que o ministério da Economia costuma oferecer a seus convidados.Em relação aos governadores, Singh também expressou suas dúvidas sobre o compromisso dos governadores de reduzir seus volumosos déficits fiscais em 60%. Outra preocupação do economista indiano é a possibilidade quase certa que as províncias continuem emitindo bônus, que estão sendo utilizados para o pagamento dos salários dos funcionários públicos e fornecedores do Estado. Diversos analistas consideram que as províncias poderiam abusar destas emissões nos próximos meses, caso a tendência de queda na arrecadação tributária permaneça.O temor na Argentina é que o FMI, que no passado foi excessivamente condescendente com as erráticas políticas econômicas dos governos, agora passe para o outro extremo, e torne-se exageradamente inflexível. Nos encontros dos dois primeiros dias, até os funcionários de menor escalão da missão mostraram-se rígidos nas discussões com os integrantes da equipe econômica argentina. O governo argentino espera obter US$ 9 bilhões do FMI, BID e Banco Mundial. No entanto, nos últimos dias começaram negociações para obter uma ajuda extra por parte de países com grandes interesses na Argentina, como a Alemanha, Itália e Espanha. O presidente Duhalde sustentou que "em maio ou junho" estaremos saindo da recessão". O presidente prometeu que "daqui a 45 dias" estará reinaugurando fábricas e indústrias".Peter SellersAcostumados por mais de uma década a contar com a presença do chileno Thomas Reichmann e do argentino Claudio Loser como os enviados do FMI para a Argentina, o governo argentino teve um choque ao ter que lidar com o novo chefe da missão, que - ao contrário de seus antecessores - não fala espanhol, é taciturno, e está constantemente acompanhado por duas belas tradutoras.Chefe do Departamento de Operações Especiais, Singh transformou-se em motivo de curiosidade e piada em Buenos Aires. Em um misto de vice-rei do FMI para este país e de atração exótica, a imprensa argentina refere-se ao economista indiano como "o homem que tem nas mãos o futuro da Argentina". Além disso, Singh foi comparado com o ator Peter Sellers, que no filme "Um convidado bem trapalhão" ("The Party") interpreta o personagem de Hrundi Bakshir, um ator indiano que causa o caos na mansão do anfitrião de uma festa. Por este motivo, chefe da missão do FMI começou a ser chamado de "Peter Sellers" no ministério da Economia.

Agencia Estado,

07 de março de 2002 | 17h45

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