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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Duhalde define seu mandato em reunião com peronistas

A cidade de Santa Rosa, capital da província de La Pampa, perderá nesta segunda-feira seu costumeiro clima pacato, para tornar-se por algumas horas o centro das decisões políticas de todo o país. Ali, o presidente provisório, Eduardo Duhalde, terá uma reunião de cúpula com os governadores de seu partido, o Justicialista (Peronista).A reunião será crucial para o presidente, já que nela ele tentará obter - pela última vez - um sinal claro de respaldo dos governadores que lhe permita continuar governando até o fim de seu mandato, marcado para dezembro de 2003. Tudo indica que o dia terá um sabor amargo para Duhalde.Os governadores pediriam ao presidente que deixe seu cargo antes e, assim, abandone a Casa Rosada, sede do governo, e volte para seu feudo político, a cidade de Lomas de Zamora. A idéia que circula entre vários caudilhos provinciais é que sejam realizadas eleições presidenciais em algum momento entre dezembro deste ano e março do ano que vem. As eleições, por enquanto, estão marcadas para setembro do ano que vem.Analistas consideram que está descartada a possibilidade de Duhalde abandonar o cargo imediatamente. O motivo é que nenhum governador ? ou algum de seus subordinados ? estaria disposto a algo que muitos chamam de ?assumir a cabine de comando do Titanic logo depois da colisão com o iceberg?. Os caudilhos peronistas vão aproveitar o encontro para definir um cronograma que estabeleça como será a convenção interna do partido.Os analistas sustentam que o próximo presidente será uma figura do peronismo, único partido que ainda possui aparato capaz de vencer eleições no atualmente fragmentado cenário político argentino. Neste domingo, poucas horas antes de embarcar para Santa Rosa, Duhalde tentou mostrar que sua permanência no ?sillón de Rivadavia? ? como é conhecida a cadeira presidencial ? não está sendo discutida.Duhalde afirmou categoricamente que nesta segunda-feira não será discutida a realização antecipada de eleições presidenciais e negou que tenha pensado em renunciar à presidência da República. No entanto, apesar das declarações do presidente, expressando suas intenções de continuar na Casa Rosada, a senadora Mabel Müller, uma das parlamentares mais fiéis a Duhalde, sustentou que o presidente ?está decidido a não continuar no cargo, caso os governadores não estejam determinados a apoiá-lo e não assinarem o acordo para reduzir gastos que permitirá um novo programa econômico com o Fundo Monetário Internacional (FMI)?.Se os governadores não implementarem o ajuste de 60% em seus déficits fiscais, será impossível para o governo Duhalde fechar um acordo com o FMI. De um total de 24 províncias, somente sete assinaram o acordo. Mas apesar das dificuldades, o presidente afirmou que até a primeira semana de junho o acordo com o Fundo já estaria assinado. ?Assim terminaremos com esse sofrimento?, explicou.Desde que tomou posse em janeiro, Duhalde sofreu continuamente a indiferença dos governadores de seu próprio partido, verdadeiros senhores semifeudais que controlam com mão-de-ferro o interior do país. Esta indiferença, ao longo dos meses, transformou-se em resistência à política econômica do governo, impedindo, desta forma, um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).Duhalde espera convencer os governadores de que é preciso implementar o ajuste de 60% exigido pelo FMI. Para que a disposição dos governadores seja verossímil, o presidente pediria datas concretas para a assinatura dos acordos individuais entre o governo federal e as províncias que ainda não colocaram suas rubricas.No governo, especula-se que a província de Santa Fe poderia assinar o acordo até meados desta semana e logo depois seria seguida pela província de Buenos Aires. Esta província, sozinha, representa quase 50% do déficit fiscal total provincial. Neste caso, devido à drástica queda da arrecadação tributária bonaerense e à escalada de conflitos sociais, a província de Buenos Aires poderia contar com uma flexibilização de seu ajuste.Enquanto os governadores ainda não decidiram se colocarão os polegares para baixo para o presidente, a população argentina já estaria cansada de Duhalde. Uma pesquisa da Catteberg e Associados indica que 56,3% dos argentinos pedem eleições presidenciais já. Somente 35% desejam que Duhalde continue no posto.Desejos à parte, a percepção de que o presidente poderia ir embora da Casa Rosada antes do estipulado aumentou de fevereiro para cá. Enquanto no segundo mês de governo 40% dos argentinos acreditavam que Duhalde duraria até dezembro de 2003, atualmente essa proporção caiu para 28%. Outra pesquisa, do Centro de Estudos de Opinião Pública (Ceop), também indica que os argentinos se cansaram de Duhalde. Segundo o Ceop, 50,3% dos pesquisados querem eleições antecipadas, enquanto 42,3% pretendem que permaneça até o fim.Leia o especial

Agencia Estado,

26 de maio de 2002 | 20h40

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