Duhalde inicia etapa decisiva para seu governo

O adjetivo ainda não aparece como verbete do Dicionário da Real Academia Espanhola, mas "Delarruizado" (significando ?como o ex-presidente Fernando de la Rúa?) é uma definição que começa a ser aplicada cada vez mais em relação ao governo do atual presidente argentino, Eduardo Duhalde. Os analistas políticos sustentam que "El Cabezón" (O Cabeção) - como Duhalde é conhecido popularmente - padece dos mesmos males que levaram ao fracassado de De la Rúa: governa com um grupo mínimo de pessoas, não controla seu próprio partido e foi isolado pelos governadores das províncias, verdadeiros senhores feudais do interior do país. A sensação de fracasso percorre o governo, mesmo antes de se completarem dois meses de poder.Além de tudo, Duhalde não consegue estabelecer uma aliança sólida com o establishment, nem tampouco consegue mobilizar a população, furiosa com o presidente pela permanência do "corralito", denominação aplicada ao semicongelamento de depósitos bancários. Os panelaços de protesto contra o governo são diários, e não dão sinais de amainar.Um dos principais analistas do país, Rosendo Fraga, disse que "nem Duhalde nem nenhum dos líderes que apoiaram sua chegada ao poder possui mais de 20% de imagem popular positiva". E, apesar da falta de mobilização das massas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) vê Duhalde como mais um populista latino-americano.Com esta bagagem, Duhalde inicia para seu governo uma etapa decisiva - as próximas duas semanas. Entre segunda e terça-feira, o governo precisará conseguir um acordo financeiro com os governadores, o que permitiria a votação do Orçamento Nacional, cujo debate está previsto para quarta-feira. Sem o acordo com os governadores e o Orçamento, o FMI não liberará a ajuda financeira que o governo pede desesperadamente. Sem ela, o dólar poderá disparar e o risco da hiperinflação voltaria imediatamente.Grande parte dos analistas concorda em dizer que abril será o "limite final" do governo Duhalde. A convocação de eleições de forma antecipada não é descartada para o caso de um fracasso do governo em reverter a crise, que se agrava dia a dia. O desemprego está em 22% e não se descarta que chegue a 30% nos próximos meses."A situação é insustentável. Não há comércio, não se criam postos de trabalho", afirmou o principal pesquisador sobre desemprego do país, Artemio López. Segundo a cúpula da Igreja argentina, o país "é um paiol de pólvora a ponto de explodir". A arrecadação tributária não pára de despencar, e poderá ter uma queda de 15% neste mês, em comparação com fevereiro do ano passado.Além disso, diariamente, os argentinos retiram 70 milhões de pesos (US$ 35 milhões) do sistema financeiro, sem pôr dinheiro novo nos bancos. O Galicia, o maior banco privado ainda em mãos de capital argentino, pediu ajuda do Banco Central e procura um sócio para sobreviver.De quebra, Duhalde precisa controlar o dólar, para evitar que a disparada da moeda americana provoque o aumento dos preços dos alimentos. Ele sustenta que o Banco Central intervirá para pôr a moeda americana em uma faixa "razoável", entre 1,60 e 1,70 peso. A declaração indispôs Duhalde com o presidente do BC, Mario Blejer que dias antes havia dito que a estratégia para conter o dólar era "confidencial".Duhalde, como De la Rúa, afirma constantemente que não é um presidente fraco, e como seu antecessor, governa com erros e acertos, tomando decisões das quais, depois, recua.Um sinal da falta de rumo foi dado há poucos dias, quando a livre flutuação do peso em relação ao dólar não havia completado sua segunda semana. Duhalde, surpreendendo a todos, afirmou que não descartava a volta da conversibilidade econômica. Rapidamente, esclareceu que não se tratava da velha paridade um a um entre o peso e o dólar (que vigorou desde março de 1991 até janeiro deste ano), mas de uma nova conversibilidade com outra relação entre a moeda argentina e a americana.As declarações, e sua insistência ao longo de dois dias, puseram Duhalde em rota de colisão com o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, que rechaçou qualquer possibilidade de retorno ao mundo da conversibilidade.Sua debilidade diante do establishment ficou evidente esta semana, quando, ao estabelecer um imposto de 20% para as exportações das empresas petrolíferas, enfrentou uma fortíssima reação do setor, que respondeu elevando o preço dos combustíveis. Duhalde disse que impediria qualquer elevação dos preços. Em poucos dias, as empresas demonstraram ser mais fortes que o ocupante da Casa Rosada, e quase todas fizeram aumentos, diante da impotência governamental.Com esta fraqueza política, as mudanças de rumo e os protestos populares, os analistas prevêem três desenlaces possíveis para o governo Duhalde. Um dos cenários prevê a permanência da recessão, o aumento dos conflitos sociais e a chegada de um "Estado policial" que o permita sobreviver até o fim do mandato em dezembro de 2003.Outro cenário indica a disparada dos preços, a escalada do dólar e o retorno da hiperinflação. Esta hipótese inclui a possibilidade de renúncia de Duhalde, e sua substituição por um presidente interino, que convocaria eleições diretas.Além destas alternativas, não se descarta o cenário no qual a protagonista seria a dolarização da economia, causada pela intensa desconfiança dos argentinos na moeda nacional, o peso. Essa possibilidade também inclui o aumento das importações, a queda das exportações, e o crescimento do desemprego.Duhalde disse que doará todo o seu salário a um fundo especial de ajuda aos mais necessitados. O anúncio foi feito depois que o mandatário aumentou o próprio salário em 15%. "Tinha pensado em doar meu salário a um fundo especial para criar novos planos sociais", afirmou o presidente sexta-feira à noite, na cidade de Tucumán. Ele não informou qual seria sua fonte de renda no futuro. Há dois meses, ele foi obrigado a fechar uma imobiliária de sua propriedade, por causa da crise econômica.Leia o especial

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