Duhalde mantém discurso ambíguo sobre comércio

Pressionado pelos setores empresariais que demandam proteção, e pelo risco de os preços internos dos produtos de consumo dispararem, o presidente argentino, Eduardo Duhalde, e sua equipe mantêm um discurso ambíguo sobre a linha de suas políticas industrial e de comércio exterior. O teor das declarações desencontradas das principais autoridades do país levaram a diplomacia e os setores empresariais brasileiros a assimilar com cautela a disposição da Argentina de levar adiante uma relação estreita e prioritária com o Brasil, e a se prepararem para um possível aumento da temperatura nas conversas sobre o tema. Desde que tomou posse, em 2 de janeiro, até o último dia 13, Duhalde teceu declarações em favor do Mercosul, buscou o apoio do Brasil e o reforço das relações com o vizinho. Depois, adotou uma linha nacionalista, ao convocar os cidadãos a preferir o produto nacional, e justificou a legitimidade da proteção comercial. Por fim, ameaçou os produtores argentinos com a redução de tarifas de importação, caso mantivessem a escalada de preços. Na prática, Duhalde deixou a definição de suas políticas nas mãos de José Ignacio de Mendiguren, escolhido para o Ministério da Produção. Ex-dono da têxtil Coniglio e presidente da União Industrial Argentina (UIA), Mendiguren era uma espécie de ativista em favor da proteção comercial, e chegou a liderar uma manifestação contrária à importação de calçados brasileiros que ocorreu em dezembro, diante da Embaixada do Brasil em Buenos Aires. No programa de televisão Dos Voces (Duas Vozes), na semana passada, deixou clara a necessidade de proteger as indústrias calçadista e têxtil, que usam mão-de-obra intensiva. Em seguida, defendeu o fortalecimento do Mercosul. Até ontem, o empresário se incumbia da tarefa de montar a estrutura de sua pasta. Na indicação de seu secretariado, prevista para a próxima semana, Mendiguren deverá esclarecer o rumo que vai tomar. ?Somente a partir daí teremos mais clara a linha que será seguida pelo governo para o comércio. Por enquanto, o que temos é um discurso nacionalista e protecionista ameaçado pelo aumento dos preços?, afirmou um dos negociadores brasileiros ao Estado. Assessora de Mendiguren no Ministério e, antes, na UIA, Sofia Mackinley, adiantou que ?haverá uma certa tendência protecionista?. Ela acrescentou que essa linha não seria dada pela adoção de barreiras comerciais, mas pela própria desvalorização do peso, que tornou mais caros os produtos importados, e pelos entraves criados pelo Banco Central para as remessas de divisas ao exterior, que dificultam as operações de comércio exterior. Na diplomacia brasileira, continua o temor de que Mendiguren possa ser menos flexível na questão do comércio bilateral, apesar da pressão dos preços e da proteção indireta dada pelo câmbio. Nos próximos dias, o Ministério da Produção deverá divulgar a lista de produtos cuja importação deverá ser regida pelo câmbio flutuante. A preocupação do Grupo Brasil, a entidade que agrega empresas brasileiras que investiram na Argentina, está na inclusão de itens de exportação do Brasil nessa lista. ?Queremos que todos os produtos brasileiros estejam excluídos dessa lista?, afirmou Eloi de Almeida, presidente do Grupo Brasil. Ao mesmo tempo, o novo governo se deparou com uma assustadora alta de preços, antes mesmo de a desvalorização ter ocorrido de fato. Na semana passada, produtos importados apareceram no comércio com preços remarcados, como os eletrodomésticos, os insumos para medicamentos e alimentos. Açúcar, farinha, óleo de cozinha, pão, carne e até o vinho nacional aumentaram de preço nos supermercados, o que levou o governo a ameaçar o empresariado com um movimento contrário ao do protecionismo. Foi quando a redução de tarifas de importação surgiu nos discursos oficiais. O economista Raúl Ochoa, ex-subsecretário de Comércio Exterior e hoje assessor da bancada justicialista na Câmara de Deputados, afirmou ao Estado que o grupo que comanda o Ministério da Produção realmente tem a intenção de proteger a indústria nacional. Mas, na situação atual da economia argentina, são os mecanismos macroeconômicos que jogam. Basicamente, a incerteza sobre a evolução da política cambial, o grau de liquidez, o risco inflacionário e a restrição ao crédito - que são suficientes para travar a economia do país e deslocar a orientação da equipe econômica para uma maior abertura. Para ele, neste momento é impossível a Argentina adotar uma política de substituição de importações da forma clássica - a concessão de incentivos e o aumento de tarifas de importação. Conforme explicou, o país atravessou um período de ampla abertura comercial, que levou ao aumento das importações de insumos e de produtos finais. Hoje, essas compras são indispensáveis para o andamento da indústria nacional. Entre 60% e 70% dos componentes da linha branca têm origem estrangeira, e nenhum motor elétrico é fabricado no país. Leia o especial

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