Duhalde pode desistir de sobretaxar petróleo

O presidente argentino, Eduardo Duhalde, parece estar perdendo autoridade e, pressionado pelas maiores companhias de petróleo do mundo instaladas no país, pode voltar atrás na sua decisão de taxar em 20% as exportações de cru e derivados. Os recursos desse tarifaço, estimados em quase US$ 800 milhões, seriam direcionados para socorrer o setor financeiro, que se encontra à beira do colapso. "Não vamos permitir o aumento do preços dos combustíveis", disse veementemente ontem o presidente.A Shell, uma das maiores multinacionais do planeta não obedeceu e determinou, a partir de hoje, um aumento entre 3,4% e 4,9% nas bombas. A companhia anglo-holandesa rompeu, dessa forma, o compromisso feito com a suas concorrentes de esperar, até hoje, o encontro entre os principais executivos das petroleiras com o governo argentino.Na manhã desta terça-feira, o vice-presidente da Shell argentina, Juan José Aranguren, negou ter desafiado a autoridade do presidente. Em entrevista a uma rádio de Buenos Aires, Aranguren afirmou que Duhalde teria apenas afirmado que o governo não aceitaria reajustes em torno de 30%, como vinha indicando a imprensa.Indagado se a companhia voltaria atrás na sua decisão de aumentar o preço dos combustíveis caso as suas concorrentes mantivessem a tabela atual, o executivo disse "o caso teria de ser repensado e, se necessário, ajustar os preços conforme determinasse o mercado".Ontem, enquanto tentavam negociar um acordo com representantes do governo, a Shell e a Esso, que detêm 30% do mercado argentino, eram as mais ansiosas para aumentar o preço dos combustíveis. Já a Repsol YPF, que concentra 50% do mercado, preferiu esperar e continuar a negociar com a administração do presidente Duhalde.A multinacional espanhola tem, entretanto, uma vantagem sobre as outras, já que, além de refinar e comercializar, extrai petróleo. A Shell e Esso, por sua vez, têm de adquirir cru a preços que, praticamente, duplicaram com a desvalorização do peso. "Cerca de 75% do nosso custos estão em dólares e, para preservar as nossa operações, não temos outra alternativa senão a de aumentar os preços", explicou um executivo da Esso ao jornal Página 12.O certo é que o governo Duhalde não vai enfrentar apenas o lobby das companhias petroleiras mas também a pressão dos sindicatos de trabalhadores do setor que temem o desemprego em massa e dos políticos das principais províncias produtoras de petróleo do país. Por isso, o governo já cogita voltar atrás na decisão de taxar em 20% as exportações de óleo e derivados, que deixou de cabelos em pé os executivos das multinacionais. Nesse caso, existe a possibilidade de criar um imposto de 8% sobre a produção de petróleo.Outro desafio a ser enfrentado por Duhalde é a pressão das companhias privatizadas, principalmente as do setor de serviços (telecomunicações, água e esgoto), que exigem aumento nas tarifas depois da desvalorização do peso, em janeiro deste ano. Até o dia 3 desse mês, as tarifas estavam dolarizadas embora pudessem ser pagas em pesos, já que a paridade permitia. Desde então, as tarifas passaram a ser pagas em peso, porém, desvalorizado. Companhias como a espanhola Telefónica e a francesa Telecom, porém, exigem "recompor a equação econômica-financeira".Leia o especial

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