Duhalde promete eleições caso economia se recupere

O presidente Eduardo Duhalde declarou que se a economia argentina entrar nos trilhos, poderia antecipar a realização das eleições presidenciais, marcadas para meados de setembro do ano que vem. Duhalde profetizou que a recuperação econômica do país poderia ocorrer em um prazo de 60 dias. No entanto, o presidente também alertou para o risco de "anarquia social" que ainda paira sobre a Argentina: "O processo anárquico está em pleno andamento no país. Isso pode ser o caos, uma luta entre irmãos".O presidente - conhecido popularmente como "El Cabezón" ("O cabeção") - disse durante uma entrevista no programa La Cornisa, do canal América 2, que a situação do país "é delicada" e com "riscos de afundar".Duhalde rechaçou qualquer hipótese de renúncia ao cargo no caso de agravamento da crise: "Se as coisas piorarem, aí é que temos que trabalhar mais duro ainda". O presidente disse que uma eventual intensificação dos "panelaços" contra o governo não o levaria a deixar o cargo. O presidente argumentou que se sente apoiado pela população. Duhalde tentou mostrar-se otimista em relação à sua gestão, e sustentou que os constantes piquetes nas estradas, realizadas por grupos de desempregados, pedindo comida e trabalho, "vão desaparecer logo. As pessoas verão a luz no fim do túnel".Segundo o presidente, "se a desvalorização do peso for competitiva, daqui a 15 dias estarei reinaugurando fábricas que fecharam há muito tempo. Já existe um novo clima na Argentina".Duhalde também disparou críticas contra o ex-presidente Carlos Menem (1989-99). Nos últimos dias, o ex-presidente, conhecido como "El Turco", alertou para o perigo do ressurgimento da hiperinflação, além de prever que o dólar chegaria à cotação de três pesos em pouco tempo. Duhalde retrucou os comentários de Menem, afirmando que ele é "prejudicial" para o país. Em uma indireta ao empobrecimento da classe média ocorrido durante a gestão de "El Turco", "El Cabezón" argumentou que o risco de hiperinflação está afastado, já que "as políticas econômicas dos últimos anos retiraram todo o dinheiro que o povo tinha".BrasileirasDuhalde rechaçou as críticas que diversos setores políticos realizaram nas últimas semanas contra as multinacionais instaladas na Argentina. "Os países que recebem as multinacionais progridem com elas", argumentou. "O que nós temos que fazer é ter multinacionais, como por exemplo, as brasileiras", disse, em alusão às empresas, que, provenientes do Brasil, instalaram-se no país. No momento, existem mais de 200 empresas brasileiras na Argentina.O presidente Duhalde começará uma seqüência de reuniões com líderes estrangeiros para tentar obter apoio internacional para a Argentina. Amanhã Duhalde receberá o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, com quem jantará à noite na residência presidencial de Olivos. A visita de Schroeder - a primeira de um chefe de governo de um país do Grupo dos Sete - é considerada fundamental para que a Argentina consiga apoio financeiro dos organismos internacionais.Duhalde também espera apoio de seus colegas do Mercosul, com os quais realizará uma reunião de cúpula extraordinária na segunda-feira. No entanto, antes da reunião, Duhalde se encontrará com o presidente Fernando Henrique Cardoso, que chegará no domingo à Buenos Aires.IgrejaEm Roma, durante uma reunião com trinta e dois bispos argentinos, o papa João Paulo II afirmou que estava muito preocupado pela "profunda crise social e econômica que atinge toda a sociedade argentina, pois coloca em perigo a estabilidade democrática e a solidez das instituições públicas, com conseqüências que vão além das fronteiras do país".Depois do duro recado, o Santo Padre acrescentou: "os argentinos precisam fazer um sério exame de consciência sobre as responsabilidades de cada um".Em Buenos Aires, o vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, respondeu às declarações do Sumo Pontífice, argumentando que "apesar da fraqueza institucional que existe no momento, tenho a confiança de que a sociedade e as instituições encontrarão forças para manter a democracia". Todesca admitiu que existe um cenário de "convulsão social intensa".O vice-ministro argumentou que "muitas pessoas" trabalham diariamente "a favor da democracia" na Argentina. "Por este motivo, tenho muita esperança de que não perderemos este bem que conquistamos em 1983 (ano do fim da última Ditadura Militar)".A troca de opiniões entre o Vaticano e o governo Duhalde sobre a crise argentina coincide com rumores de que estaria sendo preparado um golpe cívico-militar. Além disso, em Buenos Aires a mensagem do papa foi interpretada como um recado ao governo dos EUA de que é preciso conceder com urgência a ajuda financeira para a Argentina. Oportunamente, as declarações do papa João Paulo II ocorreram durante a reunião do ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov, com integrantes do FMI, do Banco Mundial, do Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID) e do Departamento do Tesouro dos EUA.Na semana passada, um dos bispos argentinos, Emilio Di Carcano, reuniu-se em Washington com o diretor do FMI, Horst Koehler, a quem explicou a preocupação da Igreja sobre a situação argentina.Leia o especial

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2002 | 16h24

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