Duhalde promoverá panelaço de apoio a seu governo

Apesar da advertência de seus ministros de que poderia ser confundido com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o chefe de Estado argentino, Eduardo Duhalde, resolveu promover um panelaço. Mas, desta vez, de apoioa seu governo. A iniciativa consolida a sua guinada às origens do peronismo.Hoje, em seu programa de rádio, o presidente da Argentinaafinou ainda mais seu discurso popular. Assegurou que os US$ 2 bilhões adiantados pelo Banco Mundial serão direcionados exclusivamente aos programas sociais e chegou a defender prisão perpétua para os corruptos.A ansiosa investida de Duhalde para conseguir o apoio desetores da sociedade ainda ariscos tornou-se mais clara em sua agenda de hoje.Primeiro, o presidente recebeu os líderes dos desempregados, os mesmos que marcharam até a Praça de Maio na última segunda-feira para pedir a criação de 1 milhão de postos de trabalho. Os chamados piqueteiros desta vez pediram ao presidente que não ceda aos lobbies do setor financeiro. Horas depois, foi a vez do Movimento Produtivo Argentino, um aglomerado de 14 entidades empresariais, entre as quais a União Industrial Argentina (UIA). Duhalde acabou levando o apoio explícito desses peso-pesados. Mas comprometeu-se a incluir no pacote econômico que será anunciado entre amanhã e sábado regras mais flexíveis para os empresários pagarem dívidas superiores a US$ 100 mil.A realização da marcha pró-Duhalde pelos peronistas de Buenos Aires foi confirmada hoje por seu porta-voz, Eduardo Amadeo. A data não está definida, mas em princípio seria do próximo domingo. Conforme explicou, a conveniência desse evento vinha sendo debatida há pelo menos duas semanas pelas bases do partido. Existe convicção no peronismo de que os panelaços contam com forte impacto nos meios de comunicação, mas não podem ser as únicas manifestações visíveis da população argentina.Segundo Amadeo, a parcela mais pobre prefere se expressar de outra forma e dar esperanças ao governo. Duhalde buscava esta idéia de uma "praça para si", afirmou Amadeo, em referência à concentração de pessoas na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, que tornou-se a típica forma de apoio ao general Juan Perón nos anos 40. Cerca de 30 anos depois, entretanto, o mesmo gesto transformou-se no meio de protesto político de familiares das vítimas do regime militar e, agora, na manifestação contra o curralzinho e a situação econômica do país. Mas os ministros Jorge Remes Lenicov (da Economia) e Carlos Ruckauf (das Relações Exteriores) se opuseram e aconselharam o presidente a não se assemelhar muito ao Chávez, completou, desta vez referindo-se aos apelos populistas do líder venezuelano.Duhalde, de fato, já incorporou uma das práticas de Chávez.No último sábado, inaugurou um programa de rádio que irá ao ar três vezes por semana e no qual pretende responder às perguntas encaminhadas pelos cidadãos. Hoje, durante seu discurso informal pela Rádio Nacional, o presidente argentino fez questão de enfatizar o direcionamento dos recursos do Banco Mundial à assistência social às famílias excluídas e também aos programas de capacitação e de criação de postos de trabalho.Mas também defendeu seu próprio posto, ao rejeitar novamente a idéia da convocação de eleição presidencial para os próximos 60 ou 90 dias.Na sua lógica, essa opção colocaria no poder apenas um outro governo de transição, como é o seu. Duhalde enfatizou que pretende promover um processo eleitoral de forma ordenada, sem caos, nem sobressaltos ou derramamento de sangue em 2003. "A ordem não se consegue com tanques, baionetas ou coquetel molotov", afirmou.O presidente argentino ainda se manifestou favorável à pena de prisão perpétua para os corruptos e aos que afetem os interesses da pátria e do povo em um discurso de empatia com a parcela da população que se considera injustiçada,principalmente depois de constatada a evasão de divisas do país mesmo com o curralzinho em vigor. "Alguns devem pagar, não com a justiça divina, mas aqui na Terra", defendeu.

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