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Duhalde volta com dólar em alta e greve

Nesta quarta-feira, quando o presidente argentino Eduardo Duhalde terminar de descer a escada do Tango 01 - o luxuoso avião presidencial - se encontrará com um panorama político, financeiro e social mais complicado do que o que deixou uma semana atrás, quando partiu em viagem à Europa, na tentativa de encontrar respaldo para o governo.Duhalde desembarcará no mesmo dia em que o governo enfrentará a primeira greve geral. Além disso, se deparará com os governos das principais províncias em estado de rebeldia e negando-se a assinar o acordo fiscal. Também terá que lidar com o nervosismo surgido pela partida do banco francês Crédit Agricole, que abandonará na Argentina os bancos Suquía, Bisel e Entre Ríos (Bersa). Todo esse cenário está sendo embalado pela nova disparada do dólar, que foi cotado hoje a 3,50 pesos nos bancos. Nas casas de câmbio terminou a jornada em 3,66 pesos, embora durante o dia tenha alcançado 3,80 pesos.Segundo o diretor da casa de câmbio mais tradicional de Buenos Aires, a Casa Piano, Alfredo Piano, "as pessoas desejam dólares, e não querem ficar com os pesos. Os argentinos estão com as mentes dolarizadas. É bobagem lutar contra uma coisa que está na mente das pessoas há mais de 15 anos".Piano, que há décadas acompanha a caótica situação cambial do país, considera que o verdadeiro preço do dólar na Argentina é o de 3 pesos. "Teria que ser feita uma nova conversibilidade econômica com esta relação. Aí, sim, as pessoas se acalmariam".Além do dólar, Duhalde terá que suportar sua primeira greve geral. Esta é a primeira vez que um presidente do partido Justicialista (Peronista) sofre uma greve geral antes de concluir os primeiros cinco meses de mandato. O peronismo, que apadrinhou os sindicatos durante meio século, possui forte influência sobre o sindicalismo.A greve, prevista para durar do meio-dia à meia-noite, foi convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) dissidente, que anunciou que pretende realizar uma manifestação com 20 mil pessoas na histórica Praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, a sede do governo.Na semana que vem, no dia 29, será a vez da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), que promete paralisar toda a máquina estatal, incluindo escolas e hospitais públicos.O governo também terá que enfrentar na quinta-feira uma paralisação dos bancários em todo o país. Os sindicatos do setor protestam contra a decisão de partida de pelo menos dois bancos estrangeiros (o canadense Bank of Nova Scotia e o francês Crédit Agricole), além da ameaça de demissões em massa, que poderiam levar à perda do trabalho de 80 mil dos 120 mil funcionários dos bancos privados do país.Para suavizar o tenso clima entre bancários e correntistas, o governo anunciou que um dos bancos estrangeiros instalados no país, neste caso, o Sudameris, já recebeu uma injeção de fundos para a capitalização por parte da casa matriz, da Itália.Ainda nesta quarta-feira Duhalde retomará as negociações com os governadores da província de Buenos Aires, Felipe Solá; de Santa Fe, Carlos Reutemann, e do governo da cidade de Buenos Aires, Aníbal Ibarra. Todos se recusam a assinar o acordo individual que os obrigaria a um ajuste de 60% de seus déficits fiscais. Até agora, somente sete de um total de 24 províncias assinaram os acordos. Somente uma delas, a de Córdoba é uma das "grandes".Os governadores rebeldes alegam que nas últimas quatro semanas, depois da assinatura de um pré-acordo, a situação financeira das províncias piorou, e que agora é preciso reformular o acordo. Os governadores enfrentam-se com um aumento da pobreza, a disparada do desemprego e uma queda sem precedentes da arrecadação tributária.Mas, sem a assinatura destas três unidades da federação (respectivamente a primeira, terceira e quarta em tamanho no país), o acordo com o FMI seria impossível. E sem o acordo, a Argentina não obterá a ajuda financeira que necessita.O bonaerense Solá explicou que não se negou a assinar, mas a situação mudou muito. "Não é nossa intenção gerar um problema entre o FMI e o governo federal, mas esse ajuste não será possível", disse. Só esta província, no primeiro trimestre deste ano, teve uma queda de 32,2% na arrecadação tributária, em comparação com o mesmo período do ano que vem."A província ainda não decidiu se assinará o pacto fiscal", afirmou o governador santafesino Reutemann, que explicou que se por um lado a receita provincial despencou, simultaneamente aumentaram os gastos decorrentes da crise social: "gastamos mais com alimentos, refeitórios comunitários, medicamentos".Reutemann sustentou que seria necessário que o FMI seja "flexível neste momento de empobrecimento generalizado". Enquanto existem resistências nas províncias de Buenos Aires e Santa Fe, o governo da cidade de Buenos Aires também adia a assinatura do acordo.O prefeito portenho, Aníbal Ibarra, afirmou que esteve "a ponto de assinar", mas que antes disso pretende receber uma série de remessas federais que o governo Duhalde ainda não enviou ao governo da cidade. Segundo Ibarra, o governo federal está atrasado com as remessas à capital argentina desde agosto do ano passado.Hoje, o governador da província de Jujuy, Eduardo Fellner, disse que concordava com a idéia de ter que realizar um ajuste fiscal de 60%. No entanto, admitiu que não poderia assinar um acordo "que talvez não possa cumprir".Leia o especial

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