Duras lições, a crise de 1907 e a crise atual

Em recente palestra, Marcos Lisboa lembrou que, ao contrário do que muitos analistas afirmam, a atual crise se assemelha mais à crise de 1907 do que ao grande crash de 1929. O livro The Panic of 1907: Lessons learned from the market?s perfect storm, escrito por Robert F. Bruner e Sean D. Carr, confirma que os paralelos com a situação econômica atual são marcantes, a despeito de um ambiente conjuntural distinto. Talvez a história possa apresentar lições interessantes para os nossos dias. Primeiro, é importante descrever os principais eventos daquele dramático ano, em que o mercado de ações recuou 37% em poucos meses e a economia americana mergulhou numa profunda recessão (se bem que durou apenas dois anos, o que é um alento nos dias de hoje...). Os eventos que marcaram o início da crise de 1907 foram o terremoto ocorrido em São Francisco, em 1906, e os incêndios que dele decorreram. Companhias de seguro se mostraram hesitantes em pagar os elevados sinistros e, como conseqüência indireta disso, causaram restrição generalizada de crédito, mesmo que tenham, ao final e em juízo, pago a maior parte das indenizações. Além disso, na época, companhias como a Standard Oil, a American Tobacco e a Du Pont sofriam ações concorrenciais como resultado da política antitruste, o que acabou apenas por elevar o nervosismo e o medo de um pânico mais descontrolado. Por fim, Augustus Heinze, um investidor de Wall Street, numa tentativa frustrada de corner da United Copper, precipitou a falência do Mercantile National Bank, o que causou uma corrida bancária generalizada, afetando especialmente os trustes. Tal foi o pânico que o quarto maior banco, o Knickerbocker Trust Company, à semelhança do Lemann Brothers, chegou a quebrar - somente a ajuda orquestrada pelo financista J. P. Morgan, que se tornaria o herói da crise de 1907, reverteu a aguda situação até restabelecer a normalidade nos mercados. A analogia com a crise atual parte primeiro do fato de que havia entidades financeiras (trustes) que não participavam do sistema de compensações, sendo prestamistas de última instância (a autoridade monetária americana só seria criada em 1913 pelo Federal Reserve Act, uma lei que criava um sistema de bancos centrais, e não um banco central, com 12 bancos federais, os Federal Reserve Banks). Na crise atual, as instituições com baixa regulação foram os hedge funds, que estavam em situação de liberdade e grande apetite por risco sem medo. Foram tais entidades que potencializaram a crise, mesmo que o prejuízo tenha recaído primordialmente sobre o sistema bancário. Um segundo paralelo relevante é o ativismo do Fed ao permitir a compra e o desconto de ativos financeiros deteriorados (tais como os CDOs), o que também aconteceu em 1907 e acabou por criar um novo sistema de seguro de depósitos. Mas a maior analogia com a crise de 1907 é o chamado credit crunch, que ameaça a economia real e levou anos para ser dissipado. Como afirmaram Ellis Tallman e Jon Moen (The Bank Panic of 1907: The Role of Trust Companies, The Journal of Economic History V, 2008), assim como vivemos com assimetria informacional, também morremos por ela. À medida que não há informação ou qualquer palpite de certeza sobre o futuro, o crédito desaparece. As lições mais conhecidas de Bruner e Carr sobre a crise de 1907 - o déjà vu do crescimento anterior intenso, um choque na economia real, comportamentos especulativos e liderança adversa - podem ajudar a compreender melhor o que está se passando. Mas a maior lição é sobre regulação. É preciso repensar a arquitetura sistêmica financeira, impedir a proliferação sem controle de produtos e serviços financeiros tóxicos e voltar ao básico: derivativos de créditos servem para proteção financeira, não para especulação desenfreada. Em geral, o assunto crises financeiras só interessa quando elas ocorrem. Quando debelar uma crise passa a ser o plano do governo tout court, por sua importância e urgência, é provável que seus custos sejam mais elevados, fazendo com que o resultado da escolha de uma única variável em política econômica em detrimento de todas as outras passe a significar, em termos práticos, a falta de investimentos gerados pela baixa poupança nacional e um progressivo esquecimento dos demais assuntos, especialmente aqueles de cunho mais desenvolvimentista. Assim, melhor é sempre prevenir. *Jairo Saddi, doutor em Direito Econômico (USP), pós-doutorado pela Universidade de Oxford, é diretor do Ibmec Direito (São Paulo). Excepcionalmente, Rogério L. F. Werneck não escreve seu artigo hoje

Jairo Saddi*, O Estadao de S.Paulo

26 Dezembro 2008 | 00h00

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