'Dúvida agora é se há um subprime brasileiro'

Para ex-consultor do FMI e do Banco Mundial, País não aproveitou o bom momento para fazer as reformas necessárias

Entrevista com

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2013 | 02h10

O Brasil errou ao não fazer as mudanças estruturais para aumentar a produtividade na época do forte crescimento econômico, diz o chileno Pedro Videla, consultor do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial e professor da Escola de Economia e Negócios Iese, na Espanha. Hoje, diz, o País paga o preço pelo erro. "Agora, todo mundo está muito preocupado se há um subprime brasileiro", afirmou em entrevista ao Estado em passagem por São Paulo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Brasil enfrenta uma pressão das ruas e do mercado. Como o sr. vê esse momento?

O Brasil teve mudanças positivas nos últimos anos. Começando com o presidente Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002). Nos 15 anos anteriores, a taxa média de inflação era de 730% ao ano e houve seis moedas distintas. Com ele, começa esse processo de estabilização, mas não de reformas, que permitiu uma caída substancial da taxa de inflação para 6%. Depois, Lula assume (2002 a 2010). Todo mundo acreditava que seria um Chávez (Hugo Chávez, ex-presidente venezuelano) ao cubo, mas não foi. Lula enfatizou a estabilidade macroeconômica e aplicou outras políticas, como as de redistribuição de renda. O Brasil começou a crescer fortemente, e qual foi a fonte desse crescimento? Primeiro, a estabilização econômica. Depois, a mudança que não fez de Lula um Chávez ao cubo, e a confiança das pessoas de que teríamos regras mais estáveis. Terceiro, essa grande inclusão de brasileiros no sistema econômico, com a distribuição da renda. E, em quarto lugar, as mudanças tecnológicas, com aumento da produtividade agrícola e o aumento dos preços das matérias-primas. Tudo isso resultou em grande crescimento do crédito doméstico. O que acontece agora? Esse modelo - se é que pode chamar de modelo de desenvolvimento, porque não é uma estratégia de longo prazo - está terminando. Não é possível continuar dando crédito às pessoas, mas o governo continuou com essa política, essencialmente com as instituições estatais. Agora, todo mundo está muito preocupado se há um subprime (política de crédito fácil, sem garantias, que deu início à crise financeira nos Estados Unidos) brasileiro.

E onde estaria localizado o subprime. Em que tipo de crédito?

Na aquisição de bens. Desde lavadoras até apartamentos, passando por carros. O processo de estabilização permitiu aos brasileiros obter esses bens. As pessoas questionam por que se fala tanto disso no Brasil, se o crédito às famílias sobre o PIB não chegou a 80% - na Espanha, essa relação é de 140%. O País é impactado também pelos preços das commodities, que tendem a se estabilizar por duas razões principais: a economia mundial não está crescendo e os países que demandavam commodities, como China e Índia, estão tendo queda no crescimento. Além disso, quando o Bernanke (Ben Bernanke, presidente do banco central americano) diz que vai começar a tirar dinheiro do sistema, todos aqueles que estavam comprando commodities para se proteger de uma inflação nos Estados Unidos, se a liquidez continuasse no sistema, estão saindo. Eu sei que o Brasil era um caos em 1995 e, agora, está melhor. Mas as perguntas são: posso abrir um empresa mais facilmente que em 1995? Posso investir mais facilmente? Posso encontrar mais capital humano que em 1995? Infelizmente, para muitas dessas perguntas, a resposta é não.

O País não aproveitou o bom momento para fazer as reformas?

As mudanças estruturais que são necessárias para aumentar a produtividade do País não foram feitas. Foram feitas mudanças muito importantes, como a estabilização. Essa é o que se chama a primeira onda de reforma. Falta se mover para a segunda onda de reformas. Sem querer me meter na política local, a percepção de fora é que, diante dessa situação, o atual governo, em vez de fazer as reformas estruturais, sobrevive a curto prazo, aumentando mais as distorções.

Qual o impacto para o Brasil com a nova política do Fed e o fim da valorização das commodities sem as reformas?

Isso é muito perigoso. O que Bernanke faz é o mesmo que todos atacavam em Greenspan (Alan Greenspan, presidente do Fed entre 1987 e 2006). Greenspan manteve as taxas de juros baixas porque dizia que não via inflação. E todos diziam que ele não deveria ter visto a inflação de preços ao consumidor, mas a inflação de commodities. Bernanke faz o mesmo e veja o problema que está criando para o Brasil. Todo mundo trazia dinheiro ao Brasil, valorizando o real, e o BC teve de criar entraves ao fluxo de capital. Isso que Bernanke criou pode mudar e o dinheiro voltar aos EUA. E o que faz um país como o Brasil que tem déficit em conta corrente?

E o que pode ocorrer?

O que os analistas dizem é que não vai ocorrer uma crise na balança de pagamentos porque, agora, não há câmbio fixo. O que pode ocorrer é uma grande tensão no sistema financeiro e no crescimento. O sistema financeiro não tem liquidez para continuar com esse modelo. Seria interessante saber quantos empréstimos para apartamentos e carros estão em dólar e não em reais.

A origem da emissão de títulos da dívida no exterior para financiar o consumo...

Esse é o problema que existe. Pode ser o problema desse fluxo que cria duas incompatibilidades. A primeira é pedir emprestado no curto prazo para uma classe que não vai pagar pelos próximos 20 anos. E a segunda é que me endividei em dólares e emprestei em reais. Essas duas distorções são ruins. Países com grandes déficits em conta corrente e financiados por meio do fluxo de capitais precisam ver quanto do déficit em conta corrente é financiado no curto prazo e quanto no longo prazo.

O Brasil tem US$ 380 bilhões de reservas internacionais.

Isso pode durar uma semana, como na crise da Rússia (em 1998). A Rússia tinha a segunda maior reserva, quase US$ 680 bilhões, e precisava defender o rublo, pois os preços das commodities caíram. Quando se depreciou o rublo, foi um grande problema. Todas as famílias e empresas tinham seus ativos numa moeda depreciada de 15% a 20%, e todos os seus passivos numa moeda forte. E não podiam pagar. E quando não podem pagar, usam as reservas. É preciso ver como estão as reservas brasileiras. Esperamos que os organismos que supervisionam o sistema bancário tenham pensado que isso pode ocorrer. É um sinal de interrogação com o qual todos estão preocupados.

O que o governo pode fazer?

Não dar mais gás para essa bolha. Isso é o que está fazendo o Banco Central. Por isso, há a preocupação da presidente (Dilma Rousseff). Isso necessariamente implica menor crescimento. E, neste momento, há pressão da rua, eleições...

Está claro para você que há uma bolha no Brasil?

É um sinal ruim ir ao Pão de Açúcar e uma Coca-Cola custar 1,50. Os preços dos apartamentos também me dão má impressão. Alguém poderia dizer que não é uma bolha, mas é um ajuste do tipo de câmbio real. Mas o aumento do preço dos apartamentos foi maior do que de unidades comerciais. Esse cenário não quer dizer que o Brasil não tenha um futuro. A grande pergunta é como vai ser o ajuste, se ele vai ser abrupto ou tangenciado.

É possível tangenciar?

É possível. Isso foi o que tentou fazer o BC com a desvalorização do real, mas é muito complicado. Não se pode controlar o câmbio, a quantidade de dinheiro e o fluxo ao mesmo tempo. O mercado desfaz tudo isso. A única forma de fazer isso no Brasil é aumentar as taxas, mas terá efeito colateral. No curto prazo, todas as empresas perderão competitividade, logo haverá menos crescimento do emprego e do produto. É uma situação muito difícil. Talvez o governo chegue nas próximas eleições e trate de fazer os ajustes necessários.

Quando o governo é questionado para cortar gastos e combater a inflação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, faz uma comparação com os países europeus, dizendo que a austeridade faz mal. Ele diz que o Brasil não vai aderir à austeridade. É a mesma situação?

Não. Primeiro, de que austeridade você fala se a Espanha teve um déficit fiscal de 10% no ano passado e há mais trabalhadores públicos do que no início da recessão? No Brasil, obviamente o crescimento do PIB vai cair no curto prazo, mas é importante mandar o sinal para os de fora. É estranho que o ministro fale assim, porque o exemplo que nós damos na Europa é o Brasil. Lula assumiu o governo com déficit primário de 2% e uma dívida em relação ao PIB de 65%, a maior parte dela indexada ao dólar e à Selic. E o que ele fez? Criou um superávit primário de 3% e as taxas baixaram. Hoje, o Brasil tem 35% de dívida sobre o PIB. É importante a percepção do mundo. Hoje, por exemplo, por que a Espanha não está quebrada ou fora do euro? Pela única razão de que o sr. Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu) disse em julho do ano passado que faria o que fosse necessário para manter o euro. É ele que está comprando os títulos da Espanha.

Portugal hoje está numa crise política muito forte, e as pessoas não aguentam mais o desemprego. Há solução para os países com austeridade?

O euro é uma moeda estrangeira para Portugal e Espanha. O euro não é uma unidade monetária. Não há nenhuma diferença hoje em dia do que ocorre em Portugal e na Espanha do que ocorreu no Brasil em 1999 ou na Argentina em 2001. O Brasil atrelou sua moeda a uma moeda estrangeira. O mesmo ocorre na Europa.

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