Tiago Queiroz/ Estadão - 21/12/2020
Tiago Queiroz/ Estadão - 21/12/2020

Dúvidas e certezas

Probabilidade de fracasso nas reformas poderá desestimular investimento e comprometer o crescimento

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2021 | 04h00

Bertrand Russell teve a percepção de que o problema do mundo era o das pessoas inteligentes estarem plenas de dúvidas e os idiotas, plenos de certezas. Assim, não é difícil de entender por que, no Brasil, o menosprezo pela gravidade da pandemia e a condução errática e irresponsável do seu combate só contribuíram para trazer sofrimento, prolongar a estagnação econômica e ampliar a pobreza.

Mostrou-se falso o propalado dilema economia versus pandemia. O cenário econômico já era de desemprego elevado, PIB estagnado, desinteresse de investidores externos e fracassos sucessivos na condução de reformas importantes. Com o governo negando metodicamente a gravidade da pandemia e revelando uma distopia surreal no seu enfrentamento, agravaram-se ainda mais o descrédito internacional do Brasil e a falta de confiança de investidores e financiadores. A recente decisão da Ford simbolizou, de forma dramática, a distopia num dos piores momentos da economia brasileira.

Tal combinação de fatores negativos só poderia resultar num desastre econômico e social de grande dimensão. O PIB, que já vinha estagnado, caiu 5,8% em 2020, e o desemprego alcançou mais de 14%. Note-se que no 2.º trimestre de 2020, o PIB teve queda recorde de 9,7%. Com as mortes pelo coronavírus ultrapassando os 250 mil, o sistema público de saúde entrou em colapso. Em meio a essa tragédia, a ignorância perdeu a vergonha e um inédito Festival de Besteiras assolou o País. Negacionistas, terraplanistas, militantes antivacina e idiotas similares saíram de suas tocas e se apresentaram à luz do dia. Um debate oligofrênico sobre as vacinas retardou providências de isolamento e agravou a propagação da covid-19. As consequências econômicas não poderiam ser diferentes: mais paralisação e mais desemprego.

Com a pandemia correndo solta, a ONU divulgou dados indicando queda anual de 51% nos investimentos estrangeiros no Brasil, em 2020, redução superior à média da queda mundial. Por outro lado, de acordo com a Conferência para o Comércio e Desenvolvimento da ONU, os programas de privatizações e concessões nas infraestruturas – já antes muito relutantes – se retraíram drasticamente no Brasil.

Alguns sinais de recuperação ocorreram em poucos setores que resistiram ou se beneficiaram, como o agronegócio. Espera-se um crescimento do PIB de pouco mais de 2% em 2021 e 2022, com atividade econômica ainda aquém dos níveis anteriores à pandemia. Com inflação abaixo da meta, alta liquidez, taxas de juros baixas, poderá haver estímulo ao investimento. No entanto, as vulnerabilidades fiscais foram exacerbadas pela necessária resposta à pandemia e a dívida pública aumentou. E a grande probabilidade de fracasso na condução das reformas estruturais poderá desestimular o investimento e comprometer o crescimento futuro.

Se benefícios temporários de emergência deram apoio a milhões de famílias, amortecendo o impacto sobre a renda familiar e a pobreza, a recuperação levará tempo e muitos empregos podem não retornar. Seriam necessárias melhorias mais amplas, duradouras e bem direcionadas de proteção social e, obviamente, desde que se retome o ajuste fiscal em curso antes da pandemia.

O problema, todavia, são os investimentos. Os recursos públicos disponíveis são parcos e dispersos em destinações sem sentido econômico, induzidas por interesses políticos fragmentados e usualmente objeto de malversação. O capital privado está fazendo sua parte em renovar e modernizar infraestruturas que são atrativas para investidores. Mas como lidar com uma imensidão de carências importantes no saneamento e nas cadeias de comunicação, transporte e energia que não são atraentes ao investimento privado? E como atrair capital externo para um país que não oferece segurança institucional e mostrou irresponsabilidade abissal na condução das medidas de contenção da pandemia?

Em meio a tantas incertezas, o certo é que os efeitos da pandemia ainda vão marcar o Brasil por muitos anos. E o preço a ser pago está sendo muito alto e ainda o será por um bom tempo.

* ECONOMISTA, CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS, É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIA

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