Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

'Dúvidas fiscais e câmbio ampliam papel do BC'

Para economista, banco 'precisa contribuir muito' para que expectativas com ajustes e combate à inflação não se percam

Entrevista com

José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV

FERNANDO DANTAS, O Estado de S.Paulo

09 Março 2015 | 02h06

Os problemas com o ajuste fiscal e o desequilíbrio externo aumentaram muito a responsabilidade do Banco Central na tarefa de buscar o reequilíbrio macroeconômico do Brasil, na visão do economista José Júlio Senna, que chefia o Centro de Estudos Monetários (CEM) do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). "Agora o BC precisa contribuir muito para as expectativas de ajuste macroeconômico e combate à inflação não se esvaírem", afirmou.

Senna está lançando o livro Essays and Conversations on Monetary Policy - que reúne ensaios e entrevistas da publicação semestral do CEM - com um seminário sobre política monetária na FGV-Rio, com a presença de ex-diretores do BC. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que o sr. achou da última decisão do Copom?

Foi esperada e correta. No finalzinho do ano e começo de janeiro, tivemos a impressão de que o ajustamento das contas públicas brasileiras seria a pedra fundamental do combate à inflação, ajudando a controlar as expectativas. Agora houve uma embaralhada na política fiscal. Em princípio, o ajuste terá continuidade, mas as dúvidas que surgiram trazem de volta o Banco Central para a cena. Não que o BC não fosse imprescindível no combate à inflação, mas antes o fiscal seria a base. Agora o BC precisa contribuir muito para as expectativas de ajuste macroeconômico e combate à inflação não se esvaírem. E isso é compatível com a elevação de 0,5 ponto porcentual da Selic.

O sr. poderia falar mais sobre a 'embaralhada' fiscal?

Acho que a equipe econômica imaginava que a base de partida, o ano de 2014, teria um pequeno déficit do governo central, que acabou sendo bem maior. O ajuste que precisa ser feito, como demonstrado nas pesquisas do Ibre, coordenadas pelo economista Gabriel de Barros, mostram que não há registro na história, desde que as contas públicas têm essa metodologia, do fim dos anos 90 para cá, de um ajuste tão significativo, em particular do governo federal. De 1998 para 1999, o governo central saiu de um déficit primário de 0,4% do PIB para superávit de 1,3%. Agora, estamos saindo de déficit de 1,3% para superávit de 1,0%. Isso já complicou um pouco.

E a questão política, com o escândalo da Petrobrás e a Lava Jato?

Também está embaralhando bastante. É outra razão para o BC agir com firmeza.

Qual a sua projeção para a alta total da Selic no atual ciclo?

Está muito difícil fazer um prognóstico agora. Enquanto o cabo de guerra das contas públicas persistir, o Banco Central vai continuar tendo de fazer ajustes da Selic, mesmo que o ritmo se reduza para 0,25 ponto porcentual por reunião. No Brasil atual, é indispensável trazer a inflação de serviços para baixo, aliás.

Por quê?

Da mesma maneira que as dificuldades no campo fiscal estão ampliando muito o papel que o BC tem de exercer daqui por diante, quando olhamos o desequilíbrio da economia brasileira sob o prisma da área externa, notamos que o papel do BC é ainda mais significativo do que imaginamos que poderia ser. O desequilíbrio da conta corrente, claro, sofre a influência de muitas variáveis. No Brasil, há mais de uma década, temos visto que aquilo que podemos chamar de câmbio real, a relação entre o preço de bens comercializáveis internacionalmente (tradables) e não comercializáveis (non tradables, a inflação de serviços), tem sido o fator explicativo da deterioração das nossas contas.

Como isso ocorre?

Na primeira metade da década passada, saímos de uma situação de quase 2% do PIB de superávit em conta corrente para o quadro atual de déficit um pouco acima de 4%. A deterioração da conta corrente foi causada, na verdade com alguma precedência, por uma piora do câmbio real como eu defini (valorização relativa dos non tradables ante os tradables). A aderência dessa relação entre tradables e non tradables com o déficit em conta corrente é muito boa. A piora de seis pontos porcentuais do déficit em conta corrente ocorreu em um período em que o câmbio real, naquela definição, apreciou-se em 20%. Isso é algo que tem de mudar.

E como muda?

A boa pergunta é como a desvalorização nominal de mais de 90% do câmbio desde o fim de 2010 não produziu uma alteração da relação tradables/non tradables. São vários fatores ao longo daquele período, mas ultimamente isso se explica pelo fato de que lá fora, principalmente no mundo desenvolvido - mas é algo mais abrangente, que se vê inclusive na China -, as pressões são desinflacionárias. Há uma recuperação muito lenta da economia global, e de forma muito desequilibrada, que favorece muito os Estados Unidos. Isso atrai o dinheiro para os Estados Unidos, fortalecendo o dólar, o que tem um impacto negativo na cotação das commodities.

Qual o risco de não ajustar a conta corrente?

Me vem à lembrança a frase de Mário Henrique Simonsen: 'A inflação aleija mas o balanço de pagamentos mata'. Hoje, a gente tem de ter uma preocupação muito grande com o setor externo porque a economia está na lona e temos 4,2% de déficit em conta corrente. Quando uma economia está crescendo bem, muito aquecida, os economistas, mesmo os mais ortodoxos, não se preocupam muito com isso, porque as oportunidades de investimento estão se ampliando, isso transborda para o mercado externo, busca-se uma poupança externa para financiar - não é tão grave. Nosso problema é que a economia não está aquecida, está estagnada, e mesmo assim o déficit está acima de 4% do PIB. Estou muito preocupado com esse desequilíbrio. É preciso que os preços relativos se invertam. Mas faz parte desse processo o chamado "desvio de demanda" - é preciso consumir menos tradables para que o excedente exportado seja maior -, o que coloca mais pressão na inflação de serviços. Assim, o BC é peça indispensável para desinflacionar os serviços.

Qual a proposta do livro 'Essays and Conversations on Monetary Policy'?

O livro é um dos frutos do meu trabalho aqui no Centro de Estudos Monetários. São pesquisas e textos publicados a cada seis meses, normalmente um ensaio e uma conversa com algum economista monetário relevante, seja acadêmico ou ex-banqueiro central. Nos temas dos ensaios, buscamos identificar o que está sendo debatido lá fora e interpretar os acontecimentos da economia mundial e as novas formulações de política econômica. E, claro, ver como tudo isso afeta a nossa economia.

O sr. poderia destacar alguns ensaios?

Um ensaio foi sobre a proposta de troca do regime de metas de inflação por meta de PIB nominal. Eu defendi uma visão muito crítica sobre essa sugestão, já que os formuladores de política econômica têm muito pouco controle sobre as variáveis macroeconômicas. Outro ensaio é sobre estratégias de política monetária antes e depois da crise. O que ficou claro é que os condutores da política monetária não prestaram a devida atenção ao problema da instabilidade financeira, o que colocou na ordem do dia as políticas macroprudenciais. Um dos meus favoritos é sobre os custos da inflação - mostro que os dirigentes dos BCs saíram muito na frente dos acadêmicos neste tema. E há também o ensaio sobre a estagnação secular e a queda do juro de equilíbrio no mundo.

E quanto às entrevistas?

O professor Laurence Ball defendeu com grande competência posições pouco convencionais, das quais tendo a discordar, como metas de inflação da ordem de 4%. Com o professor Charles Goodhart, ex-diretor do Banco da Inglaterra (BC), discutimos o papel dos diretores externos do BC britânico, sem funções administrativas ou executivas. Paul Volcker, ex-chairman do Fed e responsável pelo fim da fase da elevada inflação americana, um gigante da política monetária, enfatizou o papel fundamental da credibilidade do BC - ele não fica de lado nenhum no debate entre o regime de metas de inflação e o mandato dual (inflação e emprego) dos Estados Unidos. No fundo, o Volcker é o Volcker. Com o Pastore, finalmente, um dos nossos grandes craques em Economia Monetária, a conversa foi sobre o fato de que empiricamente o nosso BC não perseguiu a meta de 4,5% nos últimos anos, mas sim um número um pouco maior. Ele expandiu essa discussão em livro recentemente publicado.

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