THIAGO COGO
THIAGO COGO

‘É a 1ª vez, em dez anos, que crescemos menos de 15%’

Apesar da crise e daqueda nas vendas, a Leroy Merlin manteve o plano de inaugurar cinco novas lojas em 2015

Entrevista com

Alain Ryckeboer, diretor-geral da Leroy Merlin no Brasil

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2015 | 05h00

 

A Leroy Merlin, líder na venda de materiais de construção no País, com faturamento previsto para este ano de R$ 4,7 bilhões, decidiu manter os investimentos de longo prazo, apesar da crise que afeta a economia brasileira. Nesta semana, a rede inaugura três lojas, uma em Mato Grosso e duas em São Paulo, com aportes que somam R$ 295 milhões.

Em dezembro, será aberta mais uma loja em Alphaville (SP). A empresa, que faz parte do Groupe Adeco, o maior conglomerado francês do setor de bricolagem, presente em 13 países, vai encerrar o ano com 37 pontos de venda no Brasil, dos quais cinco inaugurados neste ano. O ritmo de expansão é muito mais acelerado do que foi em 2014, quando foram abertas só duas lojas. Para 2016, a intenção é abrir de três a cinco pontos de venda.

“Não é momento de parar de inaugurar lojas”, afirma Alain Ryckeboer, diretor-geral da Leroy Merlin no Brasil. Ele explica que, se os planos forem interrompidos, a empresa demora para retomá-los e corre o risco de não aproveitar a volta do crescimento da economia que, segundo ele, deve ocorrer em 2017.

Apesar do otimismo no longo prazo, o executivo conta que a varejista reduziu ao máximo o investimento de curto prazo, como em reforma de lojas, e trabalha para aumentar a produtividade. A intenção é compensar a alta de custos, como o da energia elétrica, que subiu cerca de 50%, e equilibrar o desempenho, diante da redução no ritmo de vendas. A expectativa do executivo é que a empresa feche 2015 com crescimento de 7% nas vendas. “Será a primeira vez, em dez anos, que a empresa vai crescer abaixo de 15%.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o cenário econômico atual?

Estou no Brasil há algum tempo e passei por várias crises. Mesmo que esta seja a mais forte e dure mais tempo, acredito que o País vai se recuperar. O mercado brasileiro, de 204 milhões de pessoas, é muito importante para nós. Não é momento de parar de inaugurar lojas. Vamos abrir três esta semana: uma em Campo Grande (MS) na terça; outra em São Bernardo do Campo (SP), na quarta; e mais uma em Jaguaré (SP) na quinta. Nas três lojas, foram investidos R$ 295 milhões. Para dezembro, tem mais uma loja que será inaugurada em Alphaville (SP). Estamos mantendo todos os investimentos de longo prazo, em abertura de lojas e em tecnologia. Nosso projeto é aplicar R$ 250 milhões em cinco anos em sistemas de informática, iniciando pelas áreas de compras, recursos humanos e contabilidade. Investimos neste ano R$ 580 milhões em cinco lojas e em sistemas de informação.

A empresa vai manter o mesmo ritmo no ano que vem?

Para 2016, por enquanto estão programadas de três a cinco lojas. Os investimentos para o ano que vem devem somar R$ 500 milhões em novas lojas e em tecnologia. O investimento de longo prazo, aquele que pode impactar o futuro da empresa, está sendo mantido porque temos confiança na economia do País no longo prazo. Com as inaugurações, estaremos em nove Estados e no Distrito Federal.

O que está sendo feito para enfrentar a crise?

Estamos realmente tomando muito cuidado com os investimentos de curto prazo, fazendo o mínimo possível, para passar essa fase difícil. Também estamos reduzindo as despesas, aumentando a produtividade, sendo mais exigentes e implantando procedimentos novos. Desde março, passamos a adotar um sistema de informatização que ampliou em 28% a produtividade no centro de distribuição. E, à medida que as pessoas se acostumarem com esse sistema, a produtividade vai crescer ainda mais.

O que seria o investimento de curto prazo?

É o investimento em reforma de loja, por exemplo. É aquele investimento que pode ser adiado sem prejudicar o desempenho da empresa.

Como estão as vendas?

Até julho, vínhamos muito bem, crescendo na faixa de 10%. A partir de agosto, sentimos queda no ritmo. Nos últimos dez anos, nosso crescimento no Brasil sempre foi acima de 15%. Até em 2009, quando crescemos 20%. Neste ano, devemos fechar com crescimento de 7%. Será a primeira vez, em dez anos, que a empresa vai crescer abaixo de 15%.

É esse o desempenho que vem sendo registrado no mercado de materiais de construção?

O volume de vendas de materiais de construção, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), acumula queda de 5% neste ano de janeiro a julho. Se for levada em conta a indústria de materiais e as empresas de construção, a retração é de 10% no mesmo período deste ano.

Qual é a importância do faturamento do Brasil no grupo?

Como o real teve uma desvalorização de 40% em relação ao euro desde o início do ano, o faturamento da filial brasileira perdeu 40% no grupo. Devemos chegar ao fim deste ano com um faturamento de R$ 4,7 bilhões. Hoje, o País está no quinto lugar no ranking mundial de faturamento da companhia. No ano passado, estava na quarta posição. O motivo dessa perda de participação foi a desvalorização do real em relação ao euro.

Com a desaceleração nas vendas, a rede demitiu funcionários?

Por enquanto, não. Estamos focando muito no aumento da produtividade: como fazer melhor com menos. Estamos superfocados na satisfação dos clien

tes em nossas lojas e na otimização dos estoques que giram mais rápido. Se você demitir, você terá menos pessoas nas lojas para atender, criando um clima negativo e piorando a qualidade do atendimento por falta de pessoas. Com a crise, a disputa entre os concorrentes está ainda mais acirrada e os clientes estão mais exigentes. Eles sempre podem escolher a loja que oferece o melhor atendimento, a melhor mercadoria e o melhor preço. Não é o momento de decepcionar o cliente. Todos os clientes que saem das nossas lojas têm de sair satisfeitos. Por isso não demitimos. Demitir pessoas é a última decisão a ser tomada.

Quantos funcionários o grupo tem no País?

Temos 9 mil funcionários e no último ano aumentamos o quadro em 1,2 mil trabalhadores. Cada loja inaugurada gera 250 novos postos de trabalho.

Quais são as metas da empresa para o Brasil?

Queremos ter 100 lojas em 2025. Não sabemos quanto a crise pode adiar esse plano. Por enquanto não suspendemos o investimento de longo prazo. Se pararmos, até retomarmos o plano, a expansão será atrasada. Já passei por várias crises no País, mas esta, na minha opinião, é a mais forte. A primeira foi em 1999, quando houve a desvalorização do real; a segunda foi em 2002, a crise das bolsas asiáticas; depois, 2009, da crise financeira internacional, e a agora o que temos é uma crise econômica e política. Esta é a crise mais forte, justamente porque é uma crise econômica e política.

Em quanto tempo o sr. acha que o País sairá desta crise?

Vamos ter dois anos difíceis. Acho que o País se recupera em 2017. Várias empresas estão enfrentando uma inflação muito forte em seus custos, só a energia aumentou entre 30% e 50%, além da inflação sobre todos o contratos, que são reajustados pelo IGP-M. Também os dissídios salariais foram um absurdo, muito elevados. As empresas tiveram crescimento das despesas, sem ter aumento do faturamento. Então, se as empresas não reduzem as despesas, terão problemas. Outro ponto é buscar a satisfação dos clientes para não perder faturamento. Com muita gente perdendo o emprego, as pessoas vão parar de consumir e menos dinheiro vai entrar no mercado.

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