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É a conexão 5G. Veja o que está em jogo

Os trâmites para a adoção do sistema 5G seguem a passo de tartaruga no Brasil, mas alguns avanços aconteceram há duas semanas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2020 | 13h07

Mesmo cercada de polêmica, vem aí a conexão 5G. Esse não é um assunto para nerds, como parece. Então, convém entender melhor do que se trata.

Essa nova tecnologia promete produzir importantes melhoras na qualidade da conexão de internet, que vão acelerar o processo de digitalização da sociedade. Os trâmites para adoção do sistema no Brasil seguem a passos de tartaruga, mas alguns avanços aconteceram há duas semanas.

Um deles é de natureza técnica. Foi a decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que reservou a faixa de 6 giga-hertz (GHz) para o uso exclusivo de conexões Wi-Fi. Essa faixa vai funcionar como auxiliar e  contribuir para que os celulares dos consumidores disponham da mesma velocidade obtida pelas operadoras de telefonia com a internet de banda larga, aquela contratada em casa. Hoje, as redes Wi-Fi podem manter conexões nas frequências de 2,4  e 5 GHz, que se encontram sobrecarregadas e tendem a prejudicar a qualidade de cobertura e de sinal pretendida com a nova geração de conexão móvel.

O 5G promete importantes vantagens para o consumidor: uma velocidade de conexão dez vezes maior do que a do 4G; continuidade de sinal e mais acesso, com diminuição das áreas de sombra (locais onde as redes apresentam ausência do sinal, como elevadores, túneis e áreas de difícil acesso); e diminuição do tempo de resposta da conexão (latência) entre um dispositivo e a rede.

A tecnologia já está em operação comercial em mais de 40 países, entre os quais Coreia do Sul, Estados Unidos, China, Uruguai e África do Sul.

Por causa de suas características, espera-se que o 5G traga benefícios que favoreçam a economia digital e permitam avanços tecnológicos que intensifiquem a criação de cidades inteligentes por meio de soluções de IoT (Internet das Coisas, na sigla em inglês) e circulação de veículos autônomos. Para ter acesso aos avanços pretendidos pela nova geração de rede móvel, o Brasil ainda precisa fazer investimentos em infraestrutura e realizar o leilão das frequências que serão utilizadas no 5G – evento previsto para o fim do primeiro semestre de 2021.

São iniciativas que ficarão majoritariamente a cargo de capitais privados. Esses investimentos não terão capital de recuperação. Ou seja, as empresas do setor não poderão revender os equipamentos antigos para ajudar a cobrir os custos da substituição. E a incorporação do sistema no Brasil dependerá da demanda ou da oferta de serviços mais baratos, aponta Maurício Pimentel, professor e gerente de inovação da Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo (Prodam).

Pimentel adverte que o poder público deve ter uma visão estratégica do desenvolvimento do 5G no Brasil  e se aliar à iniciativa privada de maneira a não restringir o acesso apenas aos centros urbanos, como acontece hoje com a conexão 4G. Nesse sentido, os avanços na economia digital a setem obtidos na agricultura poderão ajudar nesse processo de interiorização.

O outro tema vem sendo mais comentado na imprensa. Trata-se de superar a disputa geopolítica com os Estados Unidos no fornecimento de equipamentos pela China. O presidente Bolsonaro tem feito de tudo para fazer o jogo dos Estados Unidos e barrar o acesso do mercado brasileiro aos equipamentos da chinesa Huawei. O presidente Trump quer banir a Huawei sob alegação de que seus equipamentos embutem instrumentos de espionagem. A propósito, nada garante que equipamentos de outra procedência sejam isentos desse problema.

O Congresso Nacional criou recentemente grupos de trabalho para acompanhar as decisões do governo sobre o tema. O objetivo é evitar que decisões arbitrárias dificultem a competitividade nas telecomunicações, uma vez que a Huawei é responsável por parte das atuais redes móveis de 4G e 3G no Brasil. E há a questão de custos: a infraestrutura chinesa tende a ser mais barata.

Arthur Barrionuevo, ex-conselheiro do Cade e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), não vê sentido em banir a chinesa Huawei no fornecimento de equipamentos de 5G para o Brasil: “Ainda não se provou nada contra a empresa e, apesar de a discussão sobre o controle de dados e espionagem ser fator relevante, todo mercado, e não só a Huawei, deveria ser submetido aos mesmos crivos nessa questão”. / COM PABLO SANTANA

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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