É a emergência hídrica
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É a emergência hídrica

A crise hídrica já estava no radar há um bom tempo e, apesar da pandemia ter retardado a situação, nada foi feito para evitar o desequilíbrio

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 19h02

O governo decretou nesta sexta-feira “alerta de emergência hídrica” de junho a setembro em cinco Estados das Regiões Sudeste/Centro-Oeste: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. É o primeiro reconhecimento de que o País passa por grave crise hídrica.

 Quem afirma que se trata apenas de fatalidade age como o avestruz, que enfia a cabeça na areia para não encarar o perigo. Sim, choveu de menos, o que sempre acontece quando prevalece o fenômeno meteorológico La Niña no Oceano Pacífico – que desvia as chuvas do Centro-Sul do Brasil. Mas a questão em jogo não é tentar controlar megafenômenos climáticos, mas dispor de um sistema gerador de energia elétrica que não dependa tanto do humor de São Pedro.

Esta crise era previsível. Só não aconteceu em 2020 porque a pandemia derrubou a atividade econômica em 4,1% e, com ela, derrubou o consumo de energia em 1,6% (veja gráfico). Porque nada se fez de lá para cá para evitar o desequilíbrio, agora a crise bate em cheio na economia em recuperação, que enfrenta 14,8 milhões de desempregados e outros 6,0 milhões de desalentados.

 

Há três coisas a fazer. A primeira é cuidar da emergência. Não dá para tentar conter o consumo de energia elétrica apenas pelo aumento de tarifas e acionamento de termoelétricas. Alguma forma de racionalização do consumo terá de ser providenciada até outubro, quando se espera que o regime hidrológico comece a se normalizar. Parece inevitável que a indústria eletrointensiva, altamente dependente da eletrólise ou de fornos elétricos, terá de passar por um regime especial destinado a enfrentar a crise.

A médio prazo, é inevitável armazenar mais água nos reservatórios, inclusive no período úmido e, nesse meio tempo, acionar, com a racionalidade esperada, fontes alternativas de energia, especialmente as usinas térmicas. O objetivo dessa manobra é dar maior previsibilidade aos preços e diminuir a geração de energia pelas termoelétricas de alto custo.

E a longo prazo, é preciso entender que a maior crise não é de conjuntura hidrológica; é estrutural. A exaustão dos reservatórios no período seco é recorrente. As hidrelétricas começam o ano com 55% de nível de água em seus reservatórios e antes do fim do ano já não têm mais de 25%. Se começam o ano com nível insatisfatório é porque já não estão dando conta das necessidades.

 

O parque termoelétrico está aí para ser acionado no tempo de seca, mas grande número de usinas dessa área é ineficiente, tecnologicamente atrasada ou não está em condições de operar, seja porque não pode ser alimentada por combustíveis por falta de dutos, seja porque seu equipamento está deteriorado.

Como resultado, as tarifas de energia elétrica enfrentam enorme volatilidade. Algumas indústrias chegam a paralisar suas atividades para revender seus contratos de energia no mercado livre para obter mais resultados do que teriam com sua atividade normal. Ou seja, é preciso reorganizar toda a rede de termoelétricas, eliminar as inúteis e reequipar as que têm futuro.

Além disso, está mais do que na hora de definir amplo programa de geração de energia limpa, especialmente as de fontes eólica e fotovoltaica, nos moldes do que acaba de ser anunciado nos Estados Unidos, pelo presidente Joe Biden. Por enquanto a maior participação dessa energia na matriz energética do Brasil está sendo realizada mais por iniciativa privada espontânea do que por decisão política. Embora sejam a tendência mundial, essas atividades no Brasil carregam indefinições regulatórias e inseguranças jurídicas que precisam ser dirimidas de uma vez.

 Um jeito primário de encarar os problemas é apontar culpados e escrachá-los – o que é pouco. Melhor entender que são consequências de decisões equivocadas ou, simplesmente, de incompetência de quem está ou esteve no comando. E tratar de equacioná-los com atitudes racionais e não com dança da chuva.

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA 

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