E a Europa sai dizendo não

A reunião do G- 20 terminou declarando prioridade para o crescimento, mas a União Europeia entrou e saiu dizendo não. Não apenas um não, mas vários "nãos." Não foi uma reunião dos países do G-20, foi dos 19 contra a Alemanha, que se mantem intransigente na tese de que primeiro é a austeridade fiscal, mesmo passando pela recessão em alguns países membros, e depois o crescimento.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h07

O "não" de Barroso. E não há sinal de mudanças no curto prazo. Se havia alguma esperança na reunião dos governos da Eurozona, marcada para a próxima sexta-feira, ela morreu logo no início do encontro.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, afirmou categoricamente: não esperem nada. A reunião de sexta-feira não é para decidir nada, mas vai aprovar apenas uma "agenda" e abrir caminhos para a solução da crise financeira. Depois disso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desabafou: "Os mercados e a população perderam a confiança nas soluções para a crise do euro." Ninguém confia mais porque a crise já dura três anos, e levaram dois só para aprovar o fundo de estabilidade financeira que entra em vigor em julho, e mais nada.

Não é só a Alemanha. O problema não é mais a Alemanha em si. Não é o que ela não faz - evitar o caos do sistema financeiro que vai além da Europa - mas o que ela não deixa os outros países do bloco fazerem.

Veta gastos em investimentos, em incentivos para a demanda interna, realização de obras para criar empregos. Merkel está brigando com a nova França de Hollande, que defende uma revisão da política atual de dar prioridade ao severo ajuste fiscal deixando o crescimento para depois.

A reunião do G-20 acaba de aprovar exatamente o contrário, querem que os governos estimulem mais a demanda interna, mas, atentem, apenas sete países concordaram com isso - Brasil, Austrália, Estados Unidos, Canadá, China, Indonésia e Coreia do Sul. E mesmo assim, se a situação piorar, a Europa ficou fora. Só Hollande discordou, não aceita a imposição da Alemanha que atinge direta ou indiretamente todos os países da União Europeia. Seu presidente Durão Barroso, reagiu na reunião do G-20 e protestou que a Europa está cansada de ser o saco de pancada do mundo.

Não é Europa, é a Alemanha que, sozinha, vem e continua impedindo um plano urgente e ousado de investimentos e obras. Só isso vai impedir que o desemprego passe de 11% este ano, que a economia caia na recessão - já recuou 0,5% este ano e aponta para menos nos próximos meses, sem qualquer sinal de recuperação.

Hollande protesta, Cameron se isola, mas a palavra final e intransigente continua sendo da senhora Merkel. Pode-se até compreender sua atitude ao dizer no Congresso, não contem com a Alemanha, que não aceita a interferência externa de ninguém - reafirmada no G-20. Ela não quer perder eleições, não quer deixar o poder. Mas a União Europeia é grande demais e está levando a economia mundial a crescer talvez menos de 2% este ano. Mais uma vez, tudo depende de Berlim. De novo.

Fed ajuda. Bernanke disse ontem que o Fed está pronto para dar uma ajuda à Europa. Ontem, estendeu para até o fim do ano a compra de US$ 267 bilhões de títulos do Tesouro de curto prazo para revender a longo prazo. Já comprou até agora US$ 400 bilhões e emitiu, criou, imprimiu direta ou indiretamente, quase US$ 3 trilhões e está pronto a emitir mais porque a economia ainda não reagiu. Ajuda, mas pouco resolve se do outro lado do Atlântico, o maior bloco econômico do mundo, a União Europeia, não reagir. E não reagirá enquanto a senhora Merkel continuar pensando só na sua eleição e dizendo não.

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