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É a indústria 4.0

Nova fase do setor produtivo, na qual máquinas, produtos e pessoas compartilham e processam informações em redes

Celso Ming e Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

25 Dezembro 2016 | 03h30

Em 2021, 1 milhão de máquinas, das menores às gigantescas, serão instaladas a cada hora em todo o mundo, calcula a consultoria Gartner, especializada em tecnologia. Não serão máquinas quaisquer. Terão dispositivos eletrônicos capazes de se comunicarem entre si. Também estarão em condições de, mesmo acionadas a distância, iniciar ciclos de produção programados meses antes.

Essas máquinas permanecem conectadas à internet e funcionam a partir de análises de dados, assim como já fazem muitos dispositivos hoje largamente utilizados por consumidores comuns. Exemplo disso são os aplicativos de GPS que, pelo sistema de localização instalado nos smartphones, traçam o melhor trajeto a ser percorrido pelo motorista, identificam se o carro está acima da velocidade permitida e, até mesmo, se há pelo caminho lojas que correspondem às preferências do consumidor. A capacidade que têm esses dispositivos de se conectarem entre si e, também, a partir de um banco de informações – conhecido como big data –, de gerar um produto ou serviço é chamada genericamente de Internet das Coisas (IoT, sigla em inglês para Internet of Things). Mas se a IoT já funciona em equipamentos disponíveis para o consumidor final, na produção, no entanto, seu desenvolvimento começa a se intensificar apenas agora.

A indústria da Alemanha, China e Estados Unidos saltou à frente da que tem sido chamada quarta revolução industrial, dispositivos que podem reduzir os custos de manutenção de equipamentos entre 10% e 40% – de acordo com o que apontam projeções da consultoria McKinsey. Este é um campo em que o Brasil está nos últimos vagões do trem.

Para Norberto Tomasini, especialista em Inovação e Novas Tecnologias da consultoria PwC, o atraso do Brasil nessa área é de pelo menos cinco anos. A exceção é o agronegócio, campo de IoT em que o Brasil está entre os líderes. O déficit na indústria é ainda mais grave na medida em que o setor não tem onde encontrar cerca de 70 mil profissionais (de técnicos a engenheiros) especializados na área, enfrenta ambiente de negócios ruim e não conta com políticas públicas de incentivo e regulamentação.

Se nada se fizer para tirar esse atraso, Tomasini adverte, a indústria brasileira ficará muito vulnerável à concorrência que até 2020 as grandes corporações globais exercerão nesse campo. As projeções feitas pela consultoria de tecnologia Accenture são de que, de hoje até 2030, se tudo continuar como está, os investimentos em tecnologias ligadas à IoT não ultrapassarão a insignificância dos US$ 39 bilhões. Caso, no entanto, sejam criadas condições para absorção dessas tecnologias, os investimentos poderão alcançar os US$ 210 bilhões.

De olho nisso, o BNDES lançou edital público para contratação de estudos sobre IoT, cujo resultado está previsto para o final de 2017. Pode contribuir para que saia do papel um plano nacional de políticas públicas para o setor. O plano, cuja primeira minuta deverá ser lançada em fevereiro, é elaborado por representantes do governo e da iniciativa privada na Câmara de Internet das Coisas, criada ainda em 2014 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. A chefe do Departamento de Tecnologia da Informação e Comunicação do BNDES, Irecê Fraga, admite o atraso, mas não acha que seja irreversível. “Esta é uma onda nova em todo o mundo e não só no Brasil. Ainda há tempo para identificar os setores onde concentrar os investimentos.”

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também parece otimista. Para João Emílio Gonçalves, gerente executivo de Política Industrial da CNI, o atraso não é geral, mas se concentra em alguns setores. Grande número de empresas estrangeiras com operações no Brasil já avançou para a fase 4.0 e mesmo a Embraer começou a treinar seus trabalhadores de forma virtual (em 3D), o que tem reduzido o tempo de montagem das aeronaves em 25%.

Os especialistas da consultoria Ernst&Young no Brasil, Giovani Ortiz Tanoue e Ricardo Gomez, advertem que as empresas que não se atualizarem em IoT nos próximos cinco anos correm alto risco de acabar por serem alijadas do mercado. “É demanda inescapável. Esta é a hora em que a manufatura deve assumir relevância.”/ COM RAQUEL BRANDÃO

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