É a marcha da insensatez!

Mais uma reunião vazia esta semana entre Angela Merkel e Nicolas Sarkozy na qual decidiram não decidir nada para enfrentar a crise da dívida que está levando a Europa à recessão. Nada sobre compra de títulos da Itália e da Espanha, pelo BCE; nada sobre a criação do Eurobônus nos termos que foi apresentado na quinta-feira; nada sobre uma ação conjunta dos governos além do Fundo de Estabilização Financeira. Um fundo que míngua porque não ofereceu garantia e credibilidade aos investidores apesar da participação do FMI, vivendo uma fase de maré baixa - ninguém ligou para a linha de crédito anunciada na semana.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h06

Na reunião do G-20, onde foi apresentado, os países disseram com muita clareza que não acreditam nos líderes da Eurozona. Não estão sendo responsáveis, não estão agindo com a seriedade que a situação impõe; continuam adiando o inadiável, pondo em risco o sistema financeiro internacional ainda não refeito da crise de 2008. E a inútil reunião desta semana só confirmou isso.

A urgência que não é urgente. Depois de muita conversa na reunião para a qual convidaram o novo primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, e o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, Sarkozy cedeu à pressão de Merkel e concordou com a decisão de deixar para depois o que é mais urgente e deveria ser feito agora, a dívida soberana. A prioridade, concluíram, é a reforma da Eurozona, com a imposição de uma união fiscal austera, no que a chanceler alemã chamou de Nova Europa, talvez com menos países.

E assim, acreditem, enquanto os investidores, diante de tanta indecisão fogem dos títulos da Eurozona, tudo ficou adiado para a reunião do próximo dia 9.

O adiamento que se adia. É a repetição de sempre. As decisões já tinham sido adiadas de setembro para outubro, de outubro para novembro, de novembro, agora, para dezembro e depois janeiro, num adiamento eterno que se adia. Pessimismo? Não, porque não há nenhum sinal de que a Alemanha vai mudar seu veto a qualquer socorro do BCE ou dos governos aos países que devem mais de 100% do PIB e muito menos à criação dos eurobonds agora. No fundo, Angela Merkel não quer correr o risco de dizer aos eleitores que eles e a Alemanha vão pagar a dívida Grécia, da Itália e da Espanha.

Não quer ser a "responsável"dos "irresponsáveis", mas agindo assim, ela se torna a mais irresponsável diante do mundo porque essa política está levando a Europa à recessão e pondo em risco o sistema financeiro internacional. Exagero? Não. Diante da imobilidade europeia, o Fed decidiu se prevenir. Na última terça-feira já falava sobre como vai ser conduzido um novo "teste de stress" dos bancos americanos em 2012 para avaliar se estão preparados para o que está vindo da Europa.

Preparados mas. O governo, como em 2008, antecipou-se a esse cenário e formou um colchão de liquidez de R$1,1 trilhão. Tem R$ 443,7 bilhões que retêm do compulsório, tem reversas cambiais, conversíveis em reais, da ordem de R$ 647,8 bilhões e mais R$100 bilhões em caixa do Tesouro. São recursos que podem entrar no sistema em caso de falta de financiamento externo, provocado por uma nova crise internacional. Está preparado, sim, para o pior na área financeira, mas ainda não econômica.

O governo enfrenta hoje, segunda fase da crise externa, a forte retração da economia mundial. É um cenário difícil e inquietante porque ela vem sendo agravada não só por fatores externos, mas de política partidária interna nos Estados Unidos e na Europa, sobre os quais ninguém pode influir. Isso vem acentuando a retração da economia mundial porque eles representam 50% do PIB global. Não é mais apenas a crise financeira, agora é econômica também.

Olha o perigo ainda aí! E já se reflete no Brasil, como o governo admite. Ainda não é grave porque esta semana ele sinalizou novas medidas para aumentar a demanda que vem reduzindo assim a exposição externa. O risco é que elas foram anunciadas, mas ainda não implementadas. E que ninguém se iluda com a dedução do desemprego divulgada nesta semana pelo IBGE. Foi em outubro, mês em que ainda não estávamos sentindo o impacto crise externa sobre o crescimento da economia nacional que foi de apenas 0,32% no terceiro trimestre. E nesse mesmo mês de outubro, o primeiro do último trimestre, a criação de emprego recuou 38% sobre o ano passado.

Diante disso, por favor, senhores, mais realismo e menos festa porque as medidas chegaram com um pouco de atraso. Só assim o Brasil pode evitar o erro fatal que eles estão cometendo lá fora.

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