É a paulada dos juros
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

É a paulada dos juros

O Banco Central tornou-se refém da má administração fiscal e corre risco de que a destruição das contas públicas tire força da política dos juros

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2021 | 19h49

Há quase 19 anos o Banco Central não puxava os juros básicos (Selic) em 1,5 ponto porcentual (p.p.) numa tacada só. Desta vez foram para 7,75% ao ano e podem terminar 2021 nos 9,25% ao ano.

 

Mas, desde terça-feira, quando saiu a prévia da inflação de outubro (IPCA-15), de 1,2% e 10,34% no acumulado em 12 meses, passou a ser paulada esperada.

 

O que o Banco Central escrevera na pedra 36 dias antes foi que se conteria agora em outubro na dose predeterminada antes, de 1 ponto porcentual ao ano. Se avançou mais, foi porque a estocada da inflação atropelou a autoridade monetária – e os analistas; e porque, como perdeu o comando das expectativas, sentiu que manter-se a reboque implicaria perder mais credibilidade.

Mesmo com esse 1,5 ponto porcentual que deverá ser seguido por outro 1,5 p.p em dezembro, não está garantido que o aumento dos juros será suficiente para segurar os preços e empurrar a inflação de 2022 para algo entre 4% e 5% (a meta é 3,5%). 

O principal fator de deterioração já não é a alta global das commodities, da energia e dos custos industriais que aconteceu em escala global desde o início da retomada. O principal fator é o afundamento do teto das despesas públicas aqui no Brasil, que perdeu a âncora fiscal, não porque esteja em guerra ou foi devastado por meteoro. Perdeu porque o presidente Jair Bolsonaro quer se reeleger e decidiu comprar o voto dos pobres e dos caminhoneiros com injeção de dinheiro público na conta bancária deles. O gatilho foi a puxada no dólar que, por sua vez, segue a perda da confiança na política econômica brasileira.

Ou seja, o Banco Central tornou-se refém da má administração fiscal, sem ter tido até agora coragem de denunciar que o estrago nas contas públicas o deixa sem condições de garantir a âncora dos juros. O risco agora é de que sobrevenha o que os economistas chamam de dominância fiscal – situação em que a destruição das bases fiscais tira tração da política dos juros.

Vamos às consequências imediatas. O crédito ficará mais caro, o que é ruim para a atividade econômica, que precisa de investimentos e de capital de giro e, portanto, é fator que tende a provocar o encolhimento do PIB em 2022. Outra consequência – esta pretendida – é atrair mais dólares que, depois de convertidos em reais, poderão ser aplicados no mercado financeiro e render mais juros. Seria, portanto, um mecanismo que aumentaria a oferta de moeda estrangeira no câmbio interno, valorizaria o real e ajudaria a combater a inflação. Mas se os preços continuarem em disparada, esse efeito pode dar errado.

Essa escalada dos juros tenta conter a inflação mas não conserta o teto furado. O efeito pode ser inverso porque aumenta os juros da dívida pública que, uma vez incorporados à dívida, aumentam a própria dívida. Nem ajuda a recuperar a credibilidade na economia, que depende da política do governo Bolsonaro. Se continuar gastando sem contrapartida em receitas, a paradeira será inevitável, na contramão do que acontece na economia global. 

E, com falta de confiança, paradeira, desemprego de 13,7 milhões, perda de renda e inflação não controlada, a política populista de Bolsonaro pode ser um tiro nas suas pretensões eleitorais. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.