É a política, estúpido!

Os analistas de conjuntura estão revisando para pior suas projeções para a economia neste ano e no próximo. Em relação às estimativas de meados do primeiro semestre, há um consenso de que a economia retrairá mais, a inflação ficará mais alta, o ajuste fiscal será menor do que o prometido. Desse quadro piorado, resultará taxa de desemprego mais alta, real mais desvalorizado e adiamento do início do recuo previsto da taxa básica de juros. 

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2015 | 03h00

As previsões anteriores, apesar de já desatualizadas, não estavam erradas. Elas não contavam com a acelerada deterioração das condições políticas, que determinaram a implosão do ajuste fiscal desenhado pelo governo, e estão na base do aumento das vulnerabilidades da economia. Não é por coincidência que a cotação do CDS brasileiro - título que mede o grau de risco da dívida pública dos países - subiu quase o dobro da elevação dos congêneres de países semelhantes, inclusive nas dificuldades econômicas que enfrentam - como é o caso da Turquia -, desde o anúncio de redução das metas de superávit primário.

Essa é uma indicação segura de que a economia, desta vez, está sendo mais afetada pela crise política do que o inverso. Não é a economia, estúpido!, mas a política que está por trás do derretimento dos indicadores e da falta de horizontes para uma retomada do crescimento. A beligerância oposicionista do Congresso em relação ao Executivo, que alimenta ameaças de impeachment e pressões pela renúncia da presidente Dilma, se combina com a fragilidade da articulação do governo, marcado pelos mais baixos índices de popularidade desde que esse tipo de medição é feito, para potencializar incertezas, afetar negativamente os números econômicos e paralisar a economia.

A redução drástica das metas de superávit primário - já se projeta, no mercado, um superávit conjunto, em 2015 e 2016, abaixo das novas metas e inferior a 0,5% do PIB - deflagrou a perspectiva de perda do grau de investimento e daí, por vários canais, ocorreu uma deterioração generalizada dos indicadores. Tanto as cotações do dólar quanto a trajetória da curva de juros futuros passaram a se posicionar acima dos movimentos determinados pelos fundamentos da economia e pela situação do mercado internacional de moedas.

Diante das instabilidades e das incertezas políticas, empresas e investidores adotaram posições defensivas. Não bastasse a recessão em curso, com retração do consumo e do crédito, que já inibiria naturalmente algum pedaço do investimento, o aprofundamento da contração do nível de atividades e o aumento dos custos de financiamento praticamente inviabilizaram projetos de ampliação de capacidade. Recorrer a financiamentos externos, diante da sombra da perda do grau de investimento, o que significa custos de captação mais elevados, nem pensar.

Repete-se agora, de certo modo, a situação que predominou em 2002, quando o fator político, representado pelo temor da vitória de Lula nas eleições presidenciais daquele ano, o que acabou se confirmando, ajudou a deteriorar ainda mais os resultados econômicos - a inflação chegou a 12% e o desemprego, a 14% -, em meio a uma grave crise externa. Mas é prudente lembrar que, tanto agora quanto naquela ocasião, a economia já não ia bem e as tensões políticas apenas encontraram campo fértil para acelerar e aprofundar uma derrubada já contratada.

Sem a esticada de corda causada pela instabilidade política, que fulminou o ajuste fiscal, bancado por Dilma contra todas as expectativas, a economia do início do seu segundo mandato talvez não apresentasse números tão dramáticos e paralisia tão evidente. O que não significa que a retomada se daria no mesmo padrão da registrada a partir de 2003. Existem desequilíbrios estruturais em vários departamentos econômicos e não há, como havia no início dos anos 2000, uma economia internacional com abundante liquidez e demanda exacerbada, para propiciar uma saída mais rápida e indolor.

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