Renato S.Cerqueira/Futura Press
Renato S.Cerqueira/Futura Press
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

É a vontade de apostar na melhora

A 'vibe' do mercado está propensa a mudar, mas a velha ciclotimia não foi revogada

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2019 | 20h00

Anote os seguintes fatos:

  •  A Bolsa brasileira, que acumula alta de 14% neste ano e de 39% em 12 meses, fechou a última quarta-feira no seu recorde nominal (sem levar em conta a inflação), acima dos 100 mil pontos.
  • Em apenas cinco semanas, a cotação do dólar no câmbio interno caiu 6,2% e pode recuar ainda mais.
  • O Copom reconhece que a inflação corre abaixo da meta, mas avisa que só espera pela aprovação da reforma da Previdência para examinar a redução dos juros básicos (Selic).
  • Aumenta a probabilidade de que a reforma da Previdência seja aprovada.
  • Está em queda a principal medida de risco da economia brasileira, tal como percebido pelo mercado internacional, o CDS5 (Credit Default Swap), que é o adicional sobre os juros cobrado pelo investidor para ficar com títulos do Tesouro do Brasil de cinco anos. Atingiu os 157 pontos ao ano na última quinta-feira, o nível mais baixo desde março (148 pontos). 
  • O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) comunicou na quarta-feira que prepara nova redução dos juros (Fed funds) nos Estados Unidos, que hoje estão nos 2,25% ao ano. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, anunciou que deverá lançar estímulos para reanimar a atividade econômica. O Banco do Japão (BoJ, banco central) também anunciou disposição para novo afrouxamento da sua política de juros, “caso necessário”.
  • No próximo fim de semana, na reunião de cúpula do Grupo dos 20 (G-20), está previsto encontro entre os presidentes Donald Trump (Estados Unidos) e Xi Jinping (China). A aposta é a de que algum entendimento sairá. Se sair, outra fonte de tensão, a da guerra comercial, poderá ser afastada. 

 

Apesar dos graves problemas nas contas públicas (questão fiscal) brasileiras; apesar da prostração da atividade econômica; e apesar dos 13,4 milhões de desempregados, há alguma melhora na percepção sobre o comportamento da economia brasileira.

Sobra dinheiro no mundo e os sinais que vêm dos grandes bancos centrais, como se viu acima, é de que haverá mais cortes dos juros para tentar puxar para cima a atividade econômica global. Juros em queda no mundo rico empurrarão os investidores para a renda variável, especialmente para as ações, o que deverá beneficiar países em desenvolvimento, como o Brasil.

Se prevalecesse o climão ruim que ainda permeia muitas análises, a Bolsa brasileira não teria chegado aonde chegou. Seu movimento conta com redução dos juros também por aqui, apesar do pão-durismo do Copom. E o investidor brasileiro, que já se ressente com o baixo retorno das aplicações em renda fixa, parece mais propenso a arriscar mais em ações.

Como fica a economia brasileira nesse emaranhado que tende a melhorar as condições da economia? Não há como negar, tudo por aqui se equilibra precariamente. O investimento na atividade econômica não dá sinais de reação; o consumidor, que já enfrenta desemprego alto e quebra de renda, continua endividado e parece mais propenso a se manter na retranca.

E há o jogo político, muito confuso, sujeito a produzir surpresas, sabe-se lá em que direção. O presidente Bolsonaro ainda não conseguiu consolidar um modelo de atuação que substitua o desgastado presidencialismo de coalizão. O Congresso já aumentou e parece disposto a aumentar ainda mais seu protagonismo e a impor uma agenda econômica distinta da agenda do governo.

A conclusão é de que a vibe do mercado está propensa a mudar. Mas a velha ciclotimia não foi revogada. Assim também como pode mudar para melhor, pode mudar para pior.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.