E agora Banco Central?

Depois de vários meses surpreendendo o mercado e o próprio Banco Central, o IPCA de janeiro subiu abaixo até do piso do intervalo de estimativas dos analistas consultados pelo

O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2018 | 10h43

O comunicado que acompanhou a decisão do Copom ontem, que reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual para 6,75%, foi claro em dizer que chegou a hora de interromper o ciclo de corte de juros.

Muitos relatórios de economistas, após o anúncio da decisão e divulgação do comunicado, destacaram que esperam uma taxa Selic inalterada em 6,75% até o fim deste ano e que o próximo movimento do Copom será de aperto e não mais de afrouxamento monetário.

Mas aí veio o IPCA de janeiro.

Ao ressaltar que "essa visão (de interrupção do processo de flexibilização monetária) para a próxima reunião pode se alterar e levar a uma flexibilização monetária moderada adicional, caso haja mudanças na evolução do cenário básico e do balanço de riscos", o BC deixou a porta aberta.

E um dos fatores que podem levar a um corte da Selic na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 20 e 21 de março, é justamente a inflação.

Em um dos pontos destacados no comunicado ontem no seu balanço de riscos está o seguinte: "possível propagação, por mecanismos inerciais, do nível baixo de inflação pode produzir trajetória prospectiva abaixo do esperado".

O IPCA de janeiro subiu 0,29%, enquanto o piso das estimativas dos analistas era de uma alta de 0,33%. O resultado, aliás, foi o menor IPCA para o mês de janeiro desde o início do Plano Real. Em 12 meses, a inflação acumulada foi de 2,86%, também abaixo do piso das estimativas.

Apesar da aceleração observada nos preços de alimentação e bebidas (cujo grupo teve alta de 0,74% ante 0,54% em dezembro), o item serviços puxou o índice para baixo. E esse ainda reflete uma atividade econômica sem força o suficiente para aquecer a demanda e, por tabela, os preços.

Nos cálculos da CM Capital, serviços subjacentes, item que é monitorado com atenção pelo BC, uma vez que é mais sensível à atividade econômica, registrou desaceleração de 0,41% no IPCA de dezembro para 0,18% em janeiro.

Antes da próxima reunião do Copom, ainda sairão outros índices de preços ao consumidor. Uma nova surpresa para baixo no IPCA de fevereiro, por exemplo, deixará o mercado e o próprio BC com uma pulga atrás da orelha.

Alguns analistas chegaram a fazer uma ligação direta do comunicado de ontem do Copom com a aprovação ou não da reforma da Previdência.

Se houvesse uma surpresa e o governo conseguisse fazer a Câmara dos Deputados aprovar a reforma da Previdência até o fim deste mês, o raciocínio é que isso daria um impulso suficiente para o Copom fazer mais um corte de juros em março, talvez levando a Selic para 6,50%.

No comunicado de ontem, o Copom citou a reforma entre os itens do balanço de risco, dizendo: "Uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária".

Todavia, praticamente nenhum investidor trabalha com o cenário de aprovação da reforma da Previdência neste ano. Assim, se isso não acontecer, de fato, o impacto nos preços dos ativos não será tanto.

Por outro lado, se a turbulência observada nesta semana no cenário externo - com o tombo nas bolsas de valores e avanço forte do dólar ante outras moedas - provar ser temporária e o ambiente externo voltar a ficar benigno, o peso de novas surpresas para baixo na inflação será maior na visão do BC.

O ponto é: a surpresa para baixo do IPCA de janeiro talvez não tenha sido suficiente para analistas e investidores mudarem a aposta de fim do ciclo de corte de juros ao final do Copom de ontem.

Todavia, num cenário externo ainda benigno, novas surpresas para baixo da inflação - podendo afetar as expectativas inflacionárias para 2018 e 2019 - deixarão uma dúvida enorme (e cada vez maior) sobre se o ciclo de corte de juros realmente acabou.

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