E agora, Kirchner?

A derrota acachapante do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner nas eleições de domingo não se esgota no fato político. Em boa parte, é o resultado das opções feitas na política econômica que produzirá inexoráveis consequências políticas e econômicas.Kirchner foi presidente de 2003 a 2007, eleito com apenas 22% dos votos obtidos em primeiro turno. Não houve segundo turno, porque o ex-presidente Carlos Menem renunciou à sua candidatura logo em seguida. O baixo índice de apoio levara Kirchner a montar uma política econômica que, no seu ponto de partida, tinha um viés populista. Aumentou generosamente salários e aposentadorias e, em seguida, os congelou, como também comprimiu preços dos alimentos e tarifas da energia e dos combustíveis. Para garantir arrecadação, aumentou o Imposto sobre Exportações (retenciones). E optou por uma política cambial relativamente fixa que pudesse garantir um mínimo de competitividade para o produto argentino. Como se obrigou a comprar dólares cada vez que o peso ameaça valorizar-se, o Banco Central da Argentina perdeu o controle sobre as emissões de moeda.O calote da dívida externa deu certa folga às finanças do Estado e ainda ajudou a eleger sua esposa, Cristina Kirchner, que tomou posse em dezembro de 2007. Mas a inflação, que veio a galope, encarregou-se de corroer as bases políticas do casal Kirchner. A descarada manipulação das estatísticas não escondeu o problema de fundo. Apesar do congelamento parcial de preços e salários, as classes médias, que na Argentina são poderosas formadoras de opinião, encarregaram-se de minar o apoio político ao governo. Se não teve oposição explícita, a expropriação dos fundos privados de pensão, decidida em 2008 para garantir receitas extras, também ajudou a tirar o chão do governo.A economia sofre de mais dois graves problemas: falta de investimento, desestimulado pelo represamento de preços; e desestímulo da atividade agrícola, sangrada pelo confisco nas exportações. Pode-se concluir que a falta de benefícios reais produziu uma aliança entre as classes médias e os produtores agrícolas que corroeu a legitimação da dupla Kirchner anteriormente obtida com medidas artificiais.Ontem, a Bolsa de Buenos Aires comemorou a derrota dos Kirchner com uma alta de 0,58%, sugerindo que aumentam as apostas em mudanças na política econômica. Mas, sem apoio na sociedade ou no Congresso, fica difícil saber se algum arranjo político especial será capaz de formatar essas alterações. Os observadores se perguntam até mesmo se haverá condições políticas para que a presidente Cristina Kirchner consiga levar a cabo os dois anos e meio que lhe restam de mandato. Em contrapartida, a única força que une a oposição é ser contra os Kirchners.Parece inevitável uma drástica redução do confisco agrícola, providência que diminuirá a arrecadação e tenderá a desequilibrar ainda mais as finanças do governo central. O forte enfraquecimento do casal Kirchner deverá encorajar os sindicatos a puxar pelos salários. Se essa paisagem econômica se confirmar, os investimentos deixarão de acontecer e a fuga de dólares corre o risco de acentuar-se.Mas a essa altura ficaria difícil saber se é a deterioração política que deteriora as condições econômicas ou se é a deterioração econômica que deteriora as condições políticas. ConfiraEquação complicada - Difícil saber até que ponto a redução do IPI nas vendas de veículos e de aparelhos domésticos é apenas antecipação de compra e o que é aumento do consumo. O pedaço que não passa de antecipação está somente adiando a quebra de vendas lá na frente.Mas a queda dos preços do cimento, do vergalhão e da tinta tende a aumentar as vendas, porque leva o consumidor-formiga a aumentar o metro quadrado de obra.A melhor renúncia fiscal é a do setor de máquinas. A redução de impostos pesa mais no preço e estimula a ampliação da capacidade de produção.

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