E agora, Petrobrás?

Como o futebol, a política (e a história) é uma caixinha de surpresas.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Há alguns anos, o então presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, apresentava-se como combatente contra o neocapitalismo e suas manifestações. A Bovespa, então, não passava para ele de cassino, reduto de especuladores movidos a ganância e suor de gente pobre.

Mas, ontem, o presidente Lula festejava no pregão da Bolsa a maior operação de capitalização de uma empresa em todos os tempos. Terça-feira, em cerimônia de inauguração de um trecho da Ferrovia Norte-Sul, Lula já reconhecia de peito estufado: "Eu, que passei minha vida política dizendo que era socialista, vou fazer a maior capitalização que o mundo capitalista já fez."

Embora o governo não tenha conseguido vender todas as ações pretendidas e apesar das já analisadas barbeiragens de percurso e do pouco caso para com o acionista minoritário, a operação foi bem-sucedida. E esse sucesso foi possível graças a um punhado de fatores favoráveis. Aqui vão alguns: os mercados estão inundados de liquidez; não há, no momento, grandes opções relativamente confiáveis para aplicação de dólares; apesar das questões levantadas pelos ambientalistas, petróleo hoje é fator escasso e deverá ser ainda mais raro dentro de alguns anos; e enquanto as economias do mundo rico estão se esfacelando, as dos emergentes exibem surpreendente solidez; os fundos de investimento da Ásia estão ávidos à procura de oportunidades na área de commodities...

Mas não dá para ignorar os riscos. A Petrobrás não conseguirá manter o atual ritmo de remuneração do capital porque os investimentos a serem cobertos com essa capitalização levarão anos e anos para maturar. E será preciso mais capital para garantir o programa de investimentos. O atual reforço foi de US$ 70 bilhões. Apenas para os próximos cinco anos, a Petrobrás precisará de US$ 224 bilhões.

Mais importante ainda, agora que se tornou a segunda maior do setor no mundo, a Petrobrás está ameaçada de gigantismo. É preciso ver até que ponto será possível garantir eficiência a uma empresa ainda mais estatal do que já era, onde há cabide de emprego e os políticos estão sempre metendo o bedelho.

O tempo dirá que efeitos essa megaoferta de ações produzirá. Em termos imediatos, dá para dizer que o Brasil está sendo mais uma vez foco das atenções no mundo das finanças. Nessas condições, atrairá ainda mais recursos. Outras empresas, nacionais e estrangeiras, acionarão operações de oferta de ações para o resto do mundo a partir do Brasil. A espanhola Repsol, petroleira global que detém um pedaço de pré-sal a explorar, já avisou que logo acionará o mercado brasileiro.

O fortalecimento do mercado de capitais do País poderá exigir um fluxo ainda mais aberto de ativos financeiros do exterior e para o exterior, sabe-se lá com que impacto sobre o câmbio. E isso, por sua vez, poderá apressar o processo de redução dos juros no Brasil, porque será preciso diminuir as oportunidades de especulação com juros (arbitragem).

A União precisa desesperadamente de recursos para fortalecer suas empresas estatais. O sucesso dessa oferta de ações parece ter criado nova percepção. A de que a capitalização das empresas estatais pode ser feita por meio de democratização do capital social sem risco de que essa operação seja depois considerada privataria. E isso pode ter consequência.

Subindo e subindo

Este é o último instantâneo disponível da evolução das reservas externas. Mas, pelo novo ritmo da entrada de capitais, poderão chegar perto dos US$ 300 bilhões ao final do ano.

Pouco consistente

Não dá para projetar número mais consistente para a virada do ano porque boa parte dos recursos que vem chegando ao País está sendo mantida no exterior. Especulações dão conta de que os exportadores brasileiros retêm lá fora entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões. E a mesma coisa pode fazer agora a Petrobrás.

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