E aquela crise não veio

Enfim, um acordo de 158 bilhões com a Grécia e em mais alguns dias - apesar dos últimos problemas -, deve ser aprovada também a rolagem da dívida americana. Uma semana decisiva que afasta, pelo menos no momento, a ameaça imediata sobre a estabilidade do sistema financeiro internacional e uma nova recessão. Mas há muito ainda a fazer. As causas permanecem e não há sinais nos Estados Unidos e na Europa de vontade política de enfrentá-las.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

A dúvida agora é constatar se a crise passou ou foi apenas adiada.

O Brasil estava preparado para o pior que não veio. Ao contrário deles, enfrenta o desafio original de crescer menos com inflação menor. O mercado financeiro volta a respirar.

Algumas agências que não previram nada em 2008 afirmam que houve calote da dívida grega. O que houve, afirma Sarkozy, "foi aumentar a maturidade (o prazo de vencimento) dos títulos gregos e a redução das taxas de juros". O prazo passa de 7,5 anos para 15 anos e os juros de 5,5% para 3,5%. Todos perdem, mas o pior foi evitado.

Prioridade esquecida. O desafio, agora, é enfrentar as causas e reduzir o endividamento dos governos sem afetar seriamente a recuperação econômica. É definir as novas prioridades e não se assustar tanto com uma inflação de 2,5% provocada mais pelos custos do petróleo e das commodities agrícolas do que pelo aumento da demanda.

A zona do euro não está crescendo nem 2% este ano, o desemprego resiste perto dos 10% e os desequilíbrios internos se aprofundam na região. Não são desafios novos. Já existiam antes mesmo da crise de 2008, mas estavam em segundo plano diante da crise do euro. Resolvê-los é a prioridade esquecida.

Inflação "assustadora". Como tem afirmado o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, o importante agora é recuperar a economia, evitar a recessão ou a deflação. É crescer com investimentos e demanda e não entrar em pânico porque os preços, em 12 meses, aumentaram 2% na França e 1,2% na Alemanha.

Um mundo novo? Não chega a ser bem isso, mas é um novo cenário da economia mundial que se inicia agora, após as duas crises que se sucederam à recessão. A diferença é que os Estados Unidos apresentam mais condições de voltar a crescer do que a Europa. O Banco Central e o governo mostram mais decisão de intervir e estimular a economia, que o BC Europeu e os 17 países da zona do euro, onde a prioridade continua sendo conter a "assustadora" inflação de 2% este ano.

Brasil se livrou do que não houve. Não podemos dizer que houve teste pois não se sentiu nada por aqui, mas o Brasil "passou pelo que não ocorreu". Não foi afetado e estava preparado para o que pudesse ter vindo.

Então está tudo bem? Todos sabem que não. A economia cresce com o desafio de pressões inflacionárias e, acima de tudo, a falta de investimentos privados na produção, com a exceção da agricultura. Sustenta-se no seu último recurso - o mercado interno - que ainda avança, mas dá sinais de vacilar. Os resultados satisfatórios da solução das crises da dívida nos Estados Unidos e do euro, na Europa, terão pouca influência aqui.

O que há em comum entre nós e eles é a dificuldade em atrair investimentos privados. E chega-se ao velho e empoeirado debate dos manuais elementares de economia: o que vem primeiro, investir ou consumir? A solução sempre lembrada e debatida é de Keynes: nesses momentos, cabe ao governo investir e induzir o setor privado a investir. É o grande desafio que o Brasil ainda não enfrentou de forma decisiva. O setor privado precisa investir, mas só o fará com grande estímulo do governo.

Pode-se dizer que problemas são menores diante do que Estados Unidos, Europa e Japão enfrentam. Não tem nada a ver com eles. Mas são nossos e só nós podemos resolvê-los. Se há alguma diferença é que lá fora eles são urgentes. Afinal, crescem a 2% ao ano, e no Brasil não. Pode-se esperar um pouco o futuro. Mas, de novo Keynes: no futuro, estaremos todos mortos. Perguntem aos outros...

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