É cedo para dizer que indústria saiu da recessão técnica, diz IBGE

O coordenador de indústria do IBGE, Silvio Sales, disse hoje, em entrevista para comentar os dados sobre a produção industrial de julho, que ainda é cedo para dizer se o crescimento de 0,4% na produção em julho ante junho, após duas quedas consecutivas na comparação com mês anterior, mostra que a indústria saiu da "recessão técnica" diagnosticada no primeiro semestre. "Para fazer essa avaliação, é preciso esperar o fechamento do terceiro trimestre", disse. Questionado se o pequeno crescimento de julho ante junho mostra que o final do primeiro semestre foi o "fundo do poço" da indústria, Sales avaliou que "a indústria vinha em contínua queda nesse indicador e pelo menos não piorou. Se essa trajetória se confirmar, junho terá sido o fundo do poço". Sales disse ainda, sobre os dados de julho ante junho, que "o principal é que mudou o sinal, mas não a trajetória de queda da produção industrial". O técnico disse esperar que o primeiro sinal de aquecimento da demanda interna ocorra na redução dos estoques da indústria e do comércio. "Confirmada essa redução, poderá ocorrer uma reação mais forte desses setores no final do ano", afirmou.Por que os resultados ficaram abaixo das previsõesO especialista em dados sobre a indústria do IBGE disse que a significativa diferença entre os dados da produção industrial divulgados hoje e as previsões dos analistas ocorreu porque "normalmente as estimativas se baseiam em dados setoriais que são divulgados antes (aço, automóveis e papel e papelão)?. Segundo ele, ?se a maior parte da indústria não acompanha esses setores, há essas surpresas". A produção industrial caiu 2,5% em julho ante julho do ano passado, enquanto os analistas econômicos esperavam uma redução de no máximo 1,2%. Na comparação com junho, houve aumento de 0,4% na produção, nesse caso bem inferior ao crescimento mínimo de 1% esperado pelos analistas". Petróleo e gás puxam expansãoO crescimento de 0,4% na produção industrial em julho em relação a junho foi provocado especialmente pela normalização da produção de petróleo e gás natural, após as paralisações técnicas em algumas plataformas em junho. O retorno da atividade nas plataformas provocou um crescimento de 8,8% na produção da indústria extrativa mineral, ajudando a puxar para cima o resultado na base de comparação com mês anterior. Sales observou, entretanto, que ainda que o crescimento tenha sido "modesto", ocorreu em 10 dos 19 ramos pesquisados da indústria de transformação, ainda que os aumentos em geral tenham sido "discretos". No entanto, ele avaliou que "não houve força suficiente na reação em julho para alterar a trajetória de queda da produção". Se não houver reação, será difícil reverter dados negativos Silvio Sales alertou que "se a reação da indústria não tiver fôlego significativo, será difícil reverter os dados negativos da produção, porque a base de comparação foi crescente no ano passado". Entre setembro e dezembro do ano passado, a produção industrial registrou aumento mínimo de 5% na comparação com iguais meses de 2001, o que poderá afetar estatisticamente os resultados neste semestre. "Por causa da base de comparação, será preciso mais fôlego para melhorar os resultados", explicou Sales. Demanda interna fraca desaquecimento da demanda interna continuou puxando para baixo a produção industrial em julho. Segundo os dados divulgados hoje pelo IBGE, a queda de 2,5% no mês ante julho do ano passado sofreu impacto de reduções abruptas nessa base de comparação na produção de bens duráveis (-6,1%), não duráveis (-6,3%) e bens de capital (-6,1%). No caso dos duráveis, a redução foi puxada por mobiliário (-10,2%) e eletrodomésticos (-8,4%). Nos não duráveis, as principais quedas ocorreram em medicamentos (-22,7%), vestuário (-13%) e bebidas (-10,8%). A queda dos investimentos industriais foi ilustrada pelas retrações em bens de capital para energia elétrica (-14%), para transportes (-9,1%) e para construção civil (-38,1%)."Esses dados em bens de capital mostram que as quedas na produção estão afetando os investimentos na indústria", disse o coordenador de indústria do IBGE. A redução menos intensa entre as quatro categorias de uso pesquisadas, na base de comparação com julho do ano passado, ocorreu em bens intermediários (-0,7%). Entretanto, também nesse caso a demanda interna puxou o resultado para baixo, com queda em insumos para construção (-11%) e embalagens (-7,6%). A queda não foi maior por causa da influência positiva nos segmentos dos intermediários voltados para exportação, como celulose (12%) e minério de ferro (3%). "Exportação, agroindústria e petróleo continuam sendo os fatores positivos preponderantes, mas não suficientes para evitar as reduções nos resultados provocadas pela fraca demanda interna", disse Sales.

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