É cedo para dizer se negociações serão retomadas, diz OMC

Segundo Pascal Lamy, diretor da Organização, 'sentimento coletivo é que não podemos ficar onde estamos'

Regina Cardeal, da Agência Estado,

31 de julho de 2008 | 17h21

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, afirmou nesta quinta-feira, 31, que "é um pouco cedo para dizer" se as negociações comerciais globais da Rodada de Doha poderão ser retomadas. Falando à rádio France Inter, ele acrescentou, que "o sentimento coletivo é que não podemos ficar onde estamos".  Veja também:OMC pode retomar em breve esforços sobre Rodada DohaOs problemas que levaram as negociações ao fracasso Vencedores e perdedores após colapso de DohaPrincipais datas que marcaram a rodadaVeja a reação no Brasil após o fracasso das negociações da OMC Em Nova Délhi, o ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath, disse que espera que as discussões possam ser reiniciadas e manifestou seu compromisso em chegar a "uma conclusão bem sucedida da Rodada Doha de Desenvolvimento". Segundo Lamy, o colapso das negociações na última terça-feira mostrou que as economias emergentes querem o fim das práticas "coloniais" que favorecem o mundo desenvolvido. "Desta vez, as economias emergentes querem reequilibrar as normas, particularmente as que dizem respeito aos subsídios agrícolas, que eles vêem, e, eu acho, corretamente, como herdadas de um passado no qual eram os antigos poderes coloniais que lideravam a dança e não eles", disse à emissora de rádio francesa. As discussões da OMC fracassaram na terça-feira, depois que os delegados em Genebra terem buscado por nove dias, sem sucesso, chegar a um consenso sobre os níveis de subsídios e as tarifas de importação agrícolas no âmbito da chamada Rodada Uruguai de negociações globais lançada há sete anos. Nos próximos meses, "veremos tentativas de superar o atual impasse", disse o ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath ao retornar a capital indiana, Nova Délhi, de Genebra.  Um dos principais motivos do fracasso das negociações foi a falta de acordo entre a Índia e a China, duas das maiores economias emergentes do mundo, e os EUA sobre como as nações pobres poderiam elevar as tarifas para defender seus agricultores de aumentos repentinos nas importações.  "Estamos prontos a voltar à mesa de negociação, mas não aceitaremos compromissos contra os interesses dos países pobres", disse Nath. "A falta de consenso sobre o mecanismo de salvaguardas especiais (SSM, na sigla em inglês) não é uma questão que só afeta a Índia; afeta mais de cem países menos desenvolvidos e em desenvolvimento", disse Nath.  China e Índia exigiam o mecanismo de salvaguardas especiais, uma cláusula que permitiria que os dois países aplicassem tarifas especiais sobre certos produtos como açúcar, algodão e arroz em caso de um salto nas importações. Os EUA disseram que isso prejudicaria outros agricultores do mundo.  Os dois lados não chegaram a um acordo sobre o nível de aumento na importação a partir do qual a cláusula poderia ser acionada. Os EUA queriam fixar o acionador após um salto de 40% nas importações. China e Índia queria que isso acontecesse a partir de um aumento de 10%.  "Os países desenvolvidos tiveram mecanismos de salvaguardas pelos últimos 14 anos e quando nós queremos a salvaguarda há um problema", disse Nath. A Índia quer proteger a sobrevivência de seus 600 milhões de agricultores com o mecanismo, acrescentou. "A Índia pode negociar interesses comerciais, mas não a sobrevivência de seus agricultores."  Para a Índia, a agricultura é um tema particularmente sensível. Mais de 60% da população de 1,1 bilhão do país dependem da agricultura para viver. Abrir mão do direito de proteger os pequenos agricultores seria politicamente arriscado para o governo.  Nath, que integra o governo formado pela Aliança Progressista Unida - que enfrentará eleições no início de 2009 - deve ter levado em conta as implicações políticas de qualquer concessão em Genebra, disse o analista dos setores de comércio e alimentos Devinder Sharma, em Nova Deli. Nath disse, no entanto, que não tem "as eleições em mente".

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