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Monica De Bolle
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E coisa e tal

O espantalho da imigração que hoje vive no imaginário de Trump e de seus seguidores simplesmente não existe

O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2018 | 05h00

“Direita é do mito

Esquerda é propina. 

Direita é águia

Esquerda é rapina.”

Mal parafraseando Arnaldo Jabor, estamos assim. Direita é isso, esquerda é aquilo. Mas ao contrário do amor e do sexo, protagonistas da crônica original, não há complementos entre os dois vértices da política, ao menos não no Brasil das distopias que emerge das cinzas das eleições de 2018. 

Nas últimas semanas, soubemos que o nazismo é de esquerda, o globalismo é vertente nefasta do marxismo cultural, ideologia é o que há de pior ainda que se confunda com ideias, e que a bela música Imagine, de John Lennon, é hino em prol da hiperglobalização, e do sonho comunista. Para os que dizem coisas como essas, privatizar é de direita, intervir no funcionamento dos mercados é de esquerda, priorizar o comércio internacional é de direita, combater a desigualdade de renda é de esquerda. Há apenas dois mundinhos: o da direita divina ou o da esquerda pagã. E, a política econômica, necessariamente, deve se enquadrar em algum desses mundinhos porque caso não o faça, não merece qualquer atenção – nem do bem, nem do mal.

Ocorre que, no Brasil, um governo social-democrata privatizou. Vários governos militares, que de esquerda nada tinham, intervieram no funcionamento dos mercados até não mais poder, causando os desarranjos que hoje muitos preferem esquecer. O comércio internacional sempre foi pauta tóxica que nem a direita, nem a esquerda quiseram abraçar. Afinal, o protecionismo sempre reinou absoluto no País tropical, abençoado por Deus, esse País em que dizer que Ele está acima de todos virou mote de campanha e de governo. O globalismo – Deus nos livre – torna o homem escravo e Deus irrelevante, avisam. Só não nos dizem exatamente como.

Tampouco nos iluminam sobre como o Brasil sairá do seu eterno isolamento global sem passar por algum processo que possa não ser identificado como globalização. A imigração é o mal do século, querem que acreditemos. Contudo, há estudo após estudo mostrando que políticas que facilitam a imigração são capazes de aumentar a produtividade e de impulsionar o crescimento. O espantalho da imigração que hoje vive no imaginário de Donald Trump e de seus seguidores simplesmente não existe, menos ainda no Brasil, onde quase não recebemos – mais – imigrantes. Os recebemos aos montes no passado, somos um País de imigrantes. Mas é fácil esquecer disso na balbúrdia da atualidade.

Quanto às desigualdades e a justiça social, dia desses tive a prova mais certa e amarga de que esses são temas que parte da sociedade brasileira passou a associar ao que acreditam ser a esquerda, os comunistas, os vermelhos. Como sabem alguns leitores, dirijo o programa de estudos latino americanos da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade de Johns Hopkins, a SAIS. Criamos recentemente uma bolsa para alunos sub-representados e/ou interessados em estudar temas relativos à justiça social, à equidade, à representatividade política, à violência e exclusão social na América Latina. A bolsa tem por objetivo prover ajuda financeira para que esses alunos talentosos, porém sem capacidade financeira para custear um mestrado de dois anos numa universidade privada de prestígio internacional, possam fazê-lo. A bolsa leva o nome da vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada junto com seu motorista em março desse ano no Rio de Janeiro.

Marielle Franco elegeu-se pelo PSOL. Contudo, as causas que abraçava não eram nem de direita, nem de esquerda. As causas que abraçava eram, antes de tudo, humanitárias. Causas humanitárias pertencem a todos nós, sejamos de direita, ou de esquerda, ou de nada. No entanto, houve reações muito estranhas no Brasil quando do anúncio da bolsa. Muitos viram na iniciativa o seu propósito real. Outros, nem tanto. Outros, mordidos pela mosca da confusão mental generalizada que engoliu a Nação, viram doutrinação, vermelhidão, e esse tal espantalho do marxismo cultural que virou espécie de mantra do transe coletivo.

Bobagens vêm dos outros e vão embora – espera-se. Reflexão vem de nós e demora. Mas, por ora:

“Direita é isso

Esquerda é aquilo

E coisa e tal

E tal e coisa.”

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