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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

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Fábio Alves
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É culpa do Banco Central?

A tarefa para reduzir a volatilidade do câmbio não é só do BC

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 04h00

A lista de motivos é ampla e muita gente ainda não consegue explicar direito o porquê, inclusive o Banco Central, mas as variações bruscas – tanto de alta, quanto de queda – do dólar ante o real desde o início da crise com a pandemia do coronavírus estão prejudicando decisões de investimentos no País e é um dos assuntos que mais têm intrigado o mercado financeiro.

O real vem registrando a maior volatilidade entre as moedas emergentes nos últimos três meses. Depois de atingir a cotação máxima histórica de R$ 5,9718 durante o pregão do dia 14 de maio, o dólar recuou para R$ 4,8406 menos de um mês depois, em 10 de junho. E já está de volta ao patamar de R$ 5,38. Num único dia, em 16 de março, a moeda americana disparou 4,90%. E no dia 2 de junho, recuou 3,34% ante o real.

Em termos comparativos com outras moedas emergentes, na abertura dos mercados nesta semana, a volatilidade implícita de um mês do real, medida pelos contratos de opções, estava em 24,3%. Já a volatilidade do peso mexicano estava ao redor de 17% e a do rand sul-africano, de quase 16%.

De quem é a culpa por essa montanha-russa no câmbio: uma política ineficiente de intervenção cambial pelo BC? Um cenário político conturbado no Brasil? Um temor de descontrole fiscal em 2021 com o aumento do déficit público? Ou um ambiente externo ainda marcado por incertezas quanto ao controle da pandemia e à reabertura das maiores economias mundiais?

Em uma videoconferência na semana passada, o diretor de Política Econômica do BC, Fabio Kanczuk, admitiu que o câmbio no Brasil está mais volátil do que em outros países emergentes e que o BC está tentando identificar qual a causa desse aumento de volatilidade. “Independentemente de nível ou de ter uma tendência para cima ou para baixo, a volatilidade diária é bastante elevada”, disse.

Há quem diga que o real está mais volátil do que seus pares emergentes porque, no Brasil, o câmbio serve de hedge (proteção) para outras posições dos investidores nos mercados acionários e de juros.

Todavia, muitos analistas pedem uma intervenção mais forte do BC no câmbio – não necessariamente visando um nível de cotação, mas para reduzir a volatilidade excessiva.

Marcos Mollica, gestor responsável pelos fundos Multimercado Macro do Opportunity, sugere que um instrumento mais eficiente de intervenção cambial neste momento seria a venda direta de opções de dólar ao mercado – ou venda de volatilidade, no jargão do mercado – em vez de o BC focar apenas na oferta de swaps cambiais ou nos leilões de linha.

“O raciocínio é simples: se o problema é a volatilidade e não o nível da taxa de câmbio, então o melhor é vender volatilidade diretamente para o mercado”, explica. “Apesar dos nossos problemas fiscais, não acho que exista um desequilíbrio estrutural com a moeda brasileira.”

Por outro lado, há analistas que defendem que o aumento de volatilidade é resultado da desvalorização que o real sofreu nos últimos tempos. Aliás, alguns argumentam que a desvalorização foi tão intensa que ainda não existe um patamar de consenso para a cotação do dólar ante o real. E que essa depreciação do câmbio foi reflexo da queda abrupta da Selic, que se encontra no patamar mínimo histórico de 2,25%.

Não à toa, muitos participantes do mercado vêm criticando o afrouxamento monetário em curso pelo Copom, pois o corte da Selic gerou, entre outras consequências, o aumento da volatilidade, uma vez que juros mais altos funcionam como um “amortecedor” para movimentos mais fortes das moedas.

De qualquer forma, é unânime a visão de que a volatilidade excessiva do câmbio está afetando a economia real. De um lado, a falta de previsibilidade do preço da moeda prejudica o comércio exterior – importadores e exportadores – e deixa mais turva as decisões de investimentos. O aumento da volatilidade também resulta em menor liquidez no mercado de câmbio, inibindo quem queira aplicar em reais.

A tarefa para reduzir a volatilidade do câmbio não é só do BC. Congresso e governo precisam colaborar para um ajuste fiscal em 2021, após o aumento de gastos para combater a pandemia do coronavírus. É preciso também que cheguem ao fim as repetidas crises entre os Poderes.

*COLUNISTA DO ‘BROADCAST’ 

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